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"A Dança Como Expressão do Interior Humano"

por André Matos Gama "El Gato Volador".

Leia também: "A Arte e o Prazer de Dançar Salsa"

 

A dança é inerente ao ser humano. Desde as tribos mais antigas, a dança sempre foi usada para expressar sentimentos individuais ou coletivos, desde festejos pela boa caça, colheita, nascimento de um novo membro até mesmo a preparação para a guerra. Creio que esta seja a essência da dança: a expressão dos sentimentos. Uma linguagem tão ou até mais forte que a linguagem verbal. Tudo que o ser humano aprende no decorrer da sua vida influi na sua forma de se movimentar, na sua forma de agir e de se apresentar. A dança, em qualquer de suas formas, está intimamente e diretamente ligada à psique. Falando da Dança de Salão e mais especificamente da Salsa, o que vemos hoje é um puro adestramento das pessoas, o qual priva o "aluno" do seu direito e da sua capacidade de expressão, tolhendo e enclausurando-o em passos e seqüências pré determinadas. A técnica tornou-se mais importante que o sentimento, e o que deveria ser uma ferramenta acabou tornando-se um grilhão. O resultado disso é um baile onde todos repetem as mesmas seqüências, quase numa coreografia, sem expressão, sem sorriso, sem diversão, como recém saídos de uma linha de montagem de dançarinos. É claro que a técnica é importante, mas se usada como ferramenta e não como delimitador. A técnica existe para facilitar a criação e não para inibi-la.

                 "Considero que a comunicação corporal é carregada de valores e componentes emocionais, isto é, a expressão do imaginário consciente e inconsciente. O gesto , o olhar, o tônus muscular falam de sentimentos, medos, desejos e conflitos." (1)

                "Nossos movimentos são comandados pelo cérebro. Portanto, quem dança não são nossos pés mas, nosso cérebro. Toda informação adquirida passa pelos seus comandos que irão ordenar sua execução de acordo com os valores aprendidos no decorrer da vida. Por exemplo. Ao dançar, se nos sentimos constrangidos com o toque pelo medo de sermos mal interpretados, mesmo que os passos exijam uma aproximação maior do parceiro, nós o manteremos à distância. Podemos até tentar nos adaptar, desde que nossos valores pessoais, sejam preservados. Ao tomarmos consciência da dificuldade e entendermos nossa atitude, ficamos livres para registrar no cérebro, os movimentos adequados à perfeita execução do passo." (3)

Tudo o que expressamos consciente ou inconscientemente através do movimento é influenciado pelas nossas vivências, nossa educação, nossos medos e anseios, nossos sentimentos e o estado emocional em que nos encontramos. Estes fatores influenciam de forma decisiva na nossa forma de dançar, pois nossos sentimentos mais escondidos podem se revelar enquanto dançamos. Mesmo que inconscientemente, nosso cérebro pode bloquear determinadas ações como mecanismo de defesa emocional, fazendo com que o indivíduo não consiga executar um ou uma série de movimentos. Só podemos expressar de forma verdadeira aquilo que sentimos, que se externa, no caso da dança,  através da música. Diferentes ritmos, variações e estilos nos fazem identificar com passagens da nossa vida, despertando assim distintos sentimentos, como alegria, tristeza, saudade etc.. Deste modo creio que a expressão destes sentimentos tem uma "mola impulsionadora": a música. Falando estritamente da Salsa, não creio que haja a dança Salsa sem a música Salsa. Partindo desse pressuposto, podemos ter duas linhas de expressão: a interpretação, que seria a tentativa de entender o que o autor da música sugere, e a identificação, onde o tema desperta determinadas reações particulares do indivíduo, delineando assim os movimentos do dançarino.

                 "Assim como no discurso verbal, a dança pode refletir a personalidade real de alguém, ou sua situação." (2)

                "O significado contido na dança também depende de quem faz o que, quando, onde, por que, e como." (2)

Como tudo o que fazemos na vida, a dança também reflete nossa personalidade. Se a dança é uma expressão dos sentimentos através dos movimentos, estes carregam um significado único, que depende simplesmente de quem, onde, porque e como o executa. Falando da Dança Salsa, podemos ver nitidamente num baile que os movimentos são guiados pela intenção do dançarino. É fácil identificar aqueles que estão ali por pura diversão, aqueles que esperam através de seus movimentos conquistar um indivíduo do sexo oposto, ou ainda aqueles que desejam aplausos. Este seria o "Por Que". Traços da personalidade também se revelam na forma de como a dança é conduzida, na preocupação com o parceiro, no olhar dos dançarinos, que é o "Como". O "Quem" é definido pelo indivíduo profissional ou pelo simples apreciador da dança como diversão. O "Onde" atribui o local físico (palco, salão de baile...).

Entendendo estes pontos, podemos então construir uma nova forma de ver e de ensinar a Salsa, que também pode ser aplicada a outros ritmos que não fazem parte da nossa cultura. Criar um vínculo, uma identificação com a música, entender o ritmo e  o que é proposto no tema, buscando assim uma interação completa entre corpo, mente e música, é fundamental para permitir ao que aprende não só repetir, mas também criar. Conhecer a história, os antecedentes e as origens da dança e dos movimentos é também uma parte importantíssima, pois permite apreciar a cultura em sua essência.

 "La música, como todo otro elemento sustantivo de una cultura, no puede ser bien apreciada en sus valores sin conocer su función en la integridad del sistema de esa misma cultura, de la cual aquélla forma parte.  La música en general, así sus expresiones como sus instrumentos, responden a factores muy complejos; sin el estudio de éstos, aquélla no puede ser comprendida." (Fernando Ortiz) (4)

Aliada a este processo, há a necessidade de entender o intuito de cada indivíduo com a dança. Há aqueles que pretendem ser profissionais, aqueles que querem uma relação despretensiosa, fazendo da dança apenas uma diversão, os que procuram como válvula de escape para o estresse e aqueles que tentam através da dança superar certas limitações pessoais, como a timidez. Para cada um desses tipos é necessária uma abordagem distinta que satisfaça a cada uma das necessidades. É aí onde entra a técnica.

A técnica também deve variar de acordo com aqueles pontos citados anteriormente( o que, quando, onde, por que, e como). Um profissional da dança exige muito mais de seu corpo do que aquele que só quer ir a um baile e se divertir. Giros múltiplos, saltos e acrobacias são, ao meu ver, movimentos para shows e apresentações. Fazê-los num baile seria como andar em uma roda numa moto no meio de um congestionamento. A função de socialização do Baile perdeu seu sentido, pois os valores são outros. Antigamente as pessoas iam ao baile para ampliar seu círculo de amizades, para encontrar possíveis pretendentes e, é claro, para se divertir. Mas o que se vê hoje é bem diferente.

É comum ouvir alguém dizer "eu só vou para dançar", ou ainda aqueles que vão ao baile com o intuito da auto-promoção. Tudo isso influi diretamente na atmosfera de um baile pois através da dança transmitimos todos estes sentimentos e intenções. Num lugar onde a técnica é mais importante do que a diversão, é visível ver a inibição daqueles que se aventuram pela primeira vez. Estes sequer arriscam entrar na pista por não saber ou por considerar que ali apenas os mais habilidosos tem seu lugar. Isso também tem a ver com a necessidade de aprovação que existe em nós, que desde criança somos cobrados a agradar a tios e parentes, ou na escola, no trabalho, grupos de amigos, e na sociedade em geral, como forma de aceitação.

Através de um trabalho sério, todas essas questões são tratadas de forma natural e quase imperceptível. Evoluir como dançarino, seja profissional ou apenas um amante da dança,  pode significar evoluir como pessoa. Problemas como ansiedade e timidez excessiva vão sendo superados passo a passo, ao compasso da música e no ritmo de cada indivíduo, pois dançar também é respeitar o outro, seja ele sua(seu) parceira(o), seja um outro casal na pista, respeitando sempre seu espaço, e dessa forma garantindo que o baile seja agradável para todos. A dança é um exemplo de como é possível ter prazer através da cooperação. Dançarinos são antes de tudo cavalheiros e damas, no sentido mais profundo que estes termos possam ter.

André Matos Gama

 

Referências:

(1) - http://www.ibcnet.org.br/Downloads/Palestra_2.doc

(2) - Judith Lynne Hanna http://www.rio.rj.gov.br/centrocoreograficodorio/ensaios002.htm

(3) - Vânia Portela http://www.arthaconsultoria.com.br/asp/artigo02.asp

(4) - http://www.noti-salsa.com/Articulos/Archivo/NRG/antecede.htm

 

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