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Artigos de

"Salsa Brasil"

  por Bernardo Vieira S., Jr.

 

Boleros Cantineros - Um Estilo Bem Peculiar, e Sua Relação Com a Salsa

     

Por Bernardo "El Maraquero" Vieira & Mário "Speedy" Gonzales.

 

Ya son las dos de la mañana...

La vellonera suena viejos boleros, y de copa en copa viene el recuerdo de un amor perdido.

Déjenme sólo, que soy un borracho de honor y nadie me ayuda.

Me quedo aquí en la barra... Cantinero, tráeme más licor, vino, ron y cerveza!

(Bernardo Vieira S., Jr.)

Damas y Caballeros,

Os versos acima são editor deste site, mas poderiam figurar em qualquer bolero "cantinero", que ainda são tocados com pompa e circunstância nas vitrolas dos bares pela América Latina afora, desde os subúrbios de Buenos Aires até a mais humilde bodega de Durango...

Boleros cantineros têm a ver exatamente com a "boemia do sofrimento", combinam com rum, cerveja e qualquer outro licor.

É bom esclarecer que o termo "Cantinero” refere-se a bar, boteco, lugar exclusivo de homens onde se tomam uns "tragos" em homenagem as "ingratas que nos deixaram ou nos aprontaram", eventualmente "alguma Trampa" (mulher de vida fácil) costuma freqüentar esses locais para dar "uma mãozinha" aos sofredores e tentar tornar o seu sofrimento menos doloroso. Ao ler "cantinero” (e sem subestimar a inteligência de ninguém) os nossos amigos podem imaginar que todo isso ocorre numa "Cantina Italiana" ou coisa assim. É apenas uma questão semântica. A bem da verdade, o nome "oficial" (musicalmente falando) seria "Bolero Rítmico", e esse termo aparece nas capas dos discos. Ao invés do chamado "filin", os boleros cantineros têm maior arraigo popular e primam por uma lírica de impressionante criatividade no que se referem a desventuras amorosas. No "filin" as letras são mais pegajosas e doces, chegando a beirar o poético.  Nas cantineras, as letras são um convite claro para tomar uma e lembrar da "danada".

É justamente esta estética etílica que atrai no bolero cantinero. Não é à toa que os grandes expoentes desse estilo entraram para a história como grandes bebedores e boêmios como, por exemplo, Felipe Pirela (com direito a uma morte digna de um cantinero), Felipe Rodríguez, Daniel Santos e Julio Jaramillo.

LP "Recordando a Felipe Pirela", de Hector Lavoe (Fania Records, 1979).

Na Salsa, o grande "cantinero" é, sem dúvida, Hector Lavoe. Seu estilo de cantar boleros sofre uma influência direta de Daniel Santos. O disco "Recordando a Felipe Pirela" (1979) é um item obrigatório para quem gosta do estilo. Já ao passo que Cheo Feliciano, Santos Colón e Ismael Quintana estão mais para o filin.

Alci Acosta na Colômbia, os equatorianos Julio Jaramillo e Olimpo Cárdenas, e os peruanos Pedrito Otiniano, Lucho Barrios e Ivan Cruz são os grandes expoentes sul-americanos deste estilo de "sofrer". Mais pra cima no mapa da América o cego boricua Jose Feliciano (ao invés do seu xará Cheo, grande expoente do bolero filin mencionado) também era figurinha carimbada nas “Rockolas” ou “Velloneras”. Ainda de Porto Rico vieram Daniel Santos, Odilio Gonzalez e Felipe Rodríguez "La Voz". Este fenômeno não ocorreu aqui no Brasil, pois o estilo de bolero que prosperou mais foi aquele que conseguiu se misturar com a seresta brasileira. Talvez os únicos cantineros brasileiros sejam realmente Altemar Dutra e Carlos Alberto, que consolidaram carreiras no exterior.

Ivan Cruz, um dos maiores boleristas rítmicos peruanos.

Voltando ao estilo cantinero de cantar bolero, além da letra relatando tragédias amorosas, também é importante a interpretação quase lacrimal dos seus artistas mais representativos, sobretudo aqui na América do Sul e isto prova a inegável influencia na sua formação definitiva da musica sul-americana. Assim o bolero cantinero se viu bastante influenciado pelo Tango e a sua lírica trágica, este fator pesou bastante na Colômbia onde se ouve até hoje o Tango e conta com vários interpretes de grande estilo. O Pasillo equatoriano também tem a sua parcela nesse rebento assim como o "ponteio de violão" característico nos valsecitos peruanos bem como a sua lírica brego-amorosa.

Na verdade, muita gente admite que Cuba também é a principal influencia no que se refere a este estilo, mas é obvio que existe uma diferença fundamental, especialmente no que se refere à maneira de interpretar, entanto o cubano transcende para o emocional e apaixonado, o cantinero representa mais o sofrimento e a paixão não correspondida. Tanto isso é verdade que, à exceção de Bienvenido Granda e La Lupe, nenhum intérprete cubano é conhecido por cantar boleros de lírica dramática, e assim mesmo, esta famosa cantora habanera só aderiu à este estilo depois de ter chegado aos Estados Unidos.

Essas notas do violão típicas do bolero rítmico ou cantinero, fazendo justiça, são de influencia mexicana, e Los Panchos foram fundamentais para isso, mas quando o bolero invadiu esta parte do continente, o "toque" foi adaptado às circunstâncias de cada país.

O estilo cantinero é tão popular aqui na América do Sul, que a data da morte de Julio Jaramillo, é feriado nacional no Equador (dia do Pasillo equatoriano). Isso só pra citar um exemplo. Na Colômbia, além de Alci Acosta, os boleristas idolatram Daniel Santos (tanto, que Daniel estabeleceu residência em Cali por alguns anos). Até hoje na Venezuela se reverencia a memória de Felipe Pirela.

Daniel Santos, Julio Jaramillo e Felipe Pirela: três ídolos da música latina, e ícones do Bolero Cantinero.

Falando em mulheres cantineras... Se existe uma cantora que incorpora o espírito cantinero, essa é a mexicana Chavela Vargas. La Lupe também tinha um estilo bem dramático de cantar boleros, principalmente por causa de sua voz agudíssima e das letras que lhe foram exclusivamente compostas por Tite Curet Alonso.

Com relação à influência do Trio Los Panchos, e em especial dos solos de requinto tocados por Alfredo Gil, teríamos que começar um capítulo à parte. A história do bolero, seja ele de que natureza for, se divide em antes e depois de Los Panchos. Não só pela instrumentação em si, mas até mesmo pela maneira de cantar o bolero, o que é atestado por salseros/boleristas como Cheo Feliciano e Ismael Quintana. Apesar da influência "panchista" mexicana, não se pode negar essa influência sul-americana nos boleros cantineros. O bolero cantinero apresenta um ritmo mais apurado, um tempo um pouco mais rápido que o bolero filin, por exemplo. Sua instrumentação, baseada nas guitarras (tendo o requinto como instrumento solista) pode ter o adorno de outros instrumentos (geralmente um trompete em surdina, num tom quase choroso), o que a torna uma música muito interessante de ser ouvida, até mesmo por quem não está sofrendo de amores. Mas convenhamos: pra acompanhar uma bebida, é uma ótima trilha sonora.

Los Panchos, aqui acompanhando a Eydie Gormé, nos anos 60.

Poderia-se dizer então que o Trio Los Panchos está mais para os salões do que para os botecos e/ou cabarés onde a temática é mais crua do que poética. Mas não só cantineros nasceram por esta parte do continente, vejamos o caso do chileno Lucho Gatica, que acabou sendo referencia do bolero filin e que nunca enveredou para o estilo cantinero, ou mesmo para os trios brasileiros que não sofreram essa influência. Era evidente que para os padrões estético-musicais o bolero filin, mais poético e menos "bregão" era um prato cheio para a mídia que seguia os moldes conservadoristas no seu melhor estilo. Prestem atenção na abertura de violão dos temas de Los Panchos, Jose Feliciano, Julio Jaramillo e do Ivan Cruz, por exemplo, onde estabelecendo um paralelo com a Salsa, o violão e seu ponteio seria como os trombones desafinados e "hirientes" de Willie Colón ou Barry Rogers só para ilustrar melhor a situação. Essa cultura de sofrer só conseguiu se expandir exatamente no período do auge salsero, pois a maioria destes se identificam plenamente com esse estilo (principalmente os sul-americanos). As bachatas dominicanas são as que conseguem conjugar um pouco essas duas correntes do brega-poético e quando apareceu Juan Luis Guerra y 440 houve uma abertura maior para esse estilo que misturava bastante rítmica, breguice e poesia (este último, no caso específico de Guerra).

Para quem não está tão afeito ao bolero cantinero, mas ficou com curiosidade de conhecer, há uma Salsa cuja introdução (bem como a letra e a forma como ela é cantada) é Cantinera com "C" maiúsculo: "Cuanto Te Amo, Cuanto Te Quiero", da colombiana Orquesta Guayacán. Ultimamente o ex-vocalista do Grupo Niche, o colombiano Charlie Zaa nos trouxe alguma coisa desse estilo musical, mas ficou por isso mesmo o mercado preferiu o charme Luismigueliano de cantar boleros e deixou de lado a temática cantinera apenas para os subúrbios ou ambientes "cantineros" dos bairros sul-americanos.

Por isso, para concluir, preparamos uma lista especial só com boleros "cantineros":

1. Nuestro Juramento - Julio Jaramillo.

2. Amor De Pobre - Ivan Cruz.

3. Lágrimas Negras - Daniel Santos.

4. La Copa Del Olvido - Bienvenido Granda.

5. El Vagabundo - Trio Los Panchos.

6. Pecadora - Trio Los Panchos.

7. El Rey De Las Cantinas - Ivan Cruz.

8. Aquel Amor De Ayer - Olimpo Cárdenas.

9. El Pintor - Pedrito Otiniano.

10. Volver - Eliades Ochoa.

11. Te Lo Mereces - Olimpo Cárdenas.

12. Yo Soy El Culpable - Odilio Gonzalez.

13. Nostalgia - Bienvenido Granda.

14. La Copa Rota – Jose Feliciano.

15. La Carcel De Sing Sing – Alci Acosta.

16. Brindo – Ivan Cruz.

17. Cinco Centavitos – Pedrito Otiniano.

18. Un Disco Más – Julio Jaramillo.

19. Poquita Fe – Jose Feliciano.

20. Sé Que Me Enganaste – Ivan Cruz.

21. Rondando Tu Esquina – Julio Jaramillo.

22. Me Engañas, Mujer – Lucho Barrios.

23. Tú Me Haces Falta – Jose Feliciano.

24. Pobre Del Pobre – Felipe Pirela.

25. Sin Explicaciones – Felipe Pirela.

 

Boa ressaca, amigos!!!!

Bernardo “Maraquero” Vieira & Mário “Speedy” Gonzales.

 

Entendendo as Letras da Salsa - Quando Dança e Reflexão Andam Juntas  

Artigo dedicado à Margareth, minha Salsera Mayor, que levantou este tema no Fórum Salsa Brasil.

Caros leitores do Salsa Brasil,

Espero que tudo esteja bem com vocês. Hoje, venho falar não somente com aqueles que apreciam a salsa enquanto gênero musical, mas aos que aprenderam a amar a salsa pelo viés da dança em si. Nestes últimos dias, lá no nosso Fórum Musical, um questionamento tomou conta das atenções: Será que para dançar uma salsa, não é preciso também estar em sintonia completa com a música? Não é necessário ouvi-la e conhecê-la para que o bailado seja mais harmonioso?

Pus-me então a pensar e a fazer algumas observações a respeito. O assunto suscita uma diversidade de opiniões, e gostaria de expor a minha.

Uma das coisas que me fazem achar a salsa um gênero musical diferente de tudo o que se produz em outros lugares do mundo, é o fato de que além das harmonias e do ritmo, muitas letras são belíssimas. Infelizmente, aqui no Brasil, música dançante não foi feita pra pensar. Quanto mais rimas fáceis ou generalidades, melhor. O importante é mover a cintura, e não o cérebro.

Alguns temas na salsa são retratos de uma época, de um lugar ou de uma situação existencial. E nesse ponto de vista, não há melhores letristas que Ruben Blades e Tite Curet Alonso. Seus temas podem tratar tanto de problemas sociais como casos de amor (correspondidos ou não), mas sempre com muita poesia, com muito sentimento.

A salsa é um gênero que faculta a que uma pessoa possa bailar uma música a noite inteira, mas igualmente sentar-se numa poltrona e simplesmente escutar, justamente porque ela agrega ritmo, harmonia e letra.

É claro que nem toda salsa tem letras bem elaboradas. Algumas são bem acéfalas, pra falar a verdade. Mas aí entra o gosto e o discernimento do ouvinte/bailador, para escolher o que considera melhor. Não que eu ache que toda música tem necessariamente que ter um viés de conscientização ou coisa assim, mas também é certo que a música é o melhor veículo para isso. Principalmente em um país como o nosso, onde o acesso a livros, revistas e jornais é vedado à grande parte da população. Agora, chamo a atenção para algo que considero importante: não ter pretensões ou compromissos na hora de fazer música é uma coisa. Outra é ajudar ainda mais a aumentar o quadro de alienação da nossa população através da música (o que acontece no Brasil com bastante freqüência). Isso é um crime!

Tomemos como exemplo, a letra de "Amor y Control", de Ruben Blades. Uma música bem dançante, com muito swing. Mas a letra tem uma mensagem bastante contundente e triste, que cala fundo no coração de quem a ouve. Não há como não parar pra refletir. E por aí existem muitas outras letras de salsa que vão no mesmo caminho. Eis uma lista, bem ligeira, de mais alguns temas que seguem essa vertente reflexiva, sem perder o sabor da dança:

- El Padre Antonio y El Monaguillo Andrés - Ruben Blades: este tema conta a história verídica do padre Arnulfo Romero, defensor dos direitos humanos, que foi assassinado em plena missa. O matador nunca foi encontrado, mas sabe-se que o crime foi encomendado por poderosos locais, descontentes com os seus sermões que falavam de justiça social.

- Juan Albañil - Cheo Feliciano: composta por Tite Curet Alonso, a letra fala de um pedreiro, que depois de construir tantos prédios e escolas, não pode entrar nos lugares onde trabalhou. A letra fala também do seu sonho de igualdade. Antes de tudo, uma mensagem de esperança e de respeito aos trabalhadores latino-americanos.

- No - Willie Colón: composição de Freddy Sanchez. Um grito de "Não" a uma série de coisas: maldade, Fome, Guerra, Exploração, Egoísmo, Injustiça, Desunião, Racismo e outros problemas que afligem as sociedades do mundo inteiro.

- Filosofia de un Condenado - Bobby Valentin con Frankie Hernández: publicada originalmente com o nome de "Poem", esta letra foi composta na prisão de Rio Piedras, em Porto Rico, e enviada para Bobby Valentin, que a musicou. Muitos temas na salsa falam de vida carcerária, mas nenhum é tão contundente quanto este. Até porque o vocalista Frankie Hernández passou pelo mesmo problema.

- Justicia - Eddie Palmieri: composição de Eddie Palmieri, datada de 1968, em plena Guerra do Vietnã. Um pedido de justiça e contra o preconceito às minorias étnicas nos Estados Unidos.

- Pueblo Latino - Fania All Stars con Pete Rodríguez: "Para seguir así, prefiero la muerte", diz o coro desse sucesso de Pete "El Conde" Rodríguez, regravado posteriormente pela Spanish Harlem Orchestra. O tema conclama a força e a união dos latinos de todo o mundo. Composição de Tite Curet Alonso.

- El Secreto - Henry Fiol: o segredo para viver bem a vida, segundo o compositor e sonero Henry Fiol, é viver em paz e harmonia com as pessoas, respeitando as suas particularidades e sem se colocar como superior frente aos outros.

- Así Es La Vida - Luis Enrique: um tema quase 'filosófico' composto por Omar Alfanno, é uma reflexão sobre os principais problemas existenciais e sociais por que passam as pessoas neste nosso mundo dito "moderno".

- Casas de Cartón - Oscar D'León: composição de Ali Primera, é o retrato das "Casas De Cartón" (Casas de papelão), e de quem vive nelas. Acredito que seja inspirada nas favelas de Caracas, mas as descrições podem aplicar-se muito bem a qualquer lugar da América Latina. Embora o assunto seja sério, a letra é carregada de sentimento e bom humor.

- La Cuna Blanca - Raphy Leavitt y La Selecta: em 1973, um acidente automobilístico atingiu em cheio alguns integrantes da orquestra de Raphy Leavitt. O maestro, por sinal, sobrevive depois de ter ficado internado por seis meses num hospital. Mas seu grande amigo, o trompetista Luisito Maysonet, falece. Mesmo em coma, Raphy conta que viu Luisito despedir-se, deitado numa maca branca. Uma bela homenagem.

Reitero: não que a questão da letra tenha que ser preponderante, até porque, como eu disse, algumas letras são bem descompromissadas. Afinal, música é diversão. Dança, mais diversão ainda. Acho que isso vai de acordo com o pensamento de cada um. Quando falo aqui em "entender a letra", eu acho que é no sentido de que é algo que complementa ainda mais essa diversão a que me refiro.

No meu caso em particular, gosto de, além de dançar, poder sentar-me, e calmamente escutar não só as letras, mas os arranjos como um todo, os soneos, os solos... sou capaz de ficar horas, ouvindo uma música por várias e várias vezes, se me agrada. É algo muito interessante, você descobre algo novo a cada audição.

E também, quando a letra de uma salsa nos faz pensar, esse "pensar" não está ligado tão somente a questões existenciais, mas pode levar a questões bem pessoais. Enquanto para algumas pessoas as letras podem ser bonitas, mas não lhe dizem nada em especial, para outras, por causa de experiências de vida, essa mesma letra pode estar carregada de significados que despertam uma emoção ainda maior na hora de dançar, ou simplesmente de escutar. Exemplo: as letras que coloquei no dia dos namorados na minha lista das 10+ do site Salsa.Com.Br, me remetem a uma outra dimensão. Não tenho vergonha de dizer que, em alguns casos, já fui às lágrimas ao ouvi-las, porque elas me emocionam e me fazem pensar na minha Salsera Mayor.

A Salsa nos faculta isso: poder juntar boas letras com um baile tão envolvente, que quem conhece se deixa fascinar. No tango, isso também acontece. Veja a letra de "Cambalache", por exemplo: um verdadeiro tratado filosófico, repleto de termos do vocabulário portenho. Eu só lamento que, na música brasileira, isso já não é a regra. Como eu disse anteriormente: música que diverte é uma coisa, música que aliena é outra. Parece até que, para a maioria dos produtores e diretores de gravadora, música pra dançar não pode ter uma letra de conteúdo. O resultado nós bem conhecemos. E tome "Dança da Bundinha", "Dancinha disso", "Dancinha daquilo"...

Então, que sigamos bailando! Que os bons sons os acompanhem.

Bernardo Vieira S., Jr.

 

 

Para ser Sonero (1ª parte)

Como sempre afirma o grande Willie Colón, a Salsa, mais do que um gênero musical, é um conceito, que envolve a dança, a música e todo um fenômeno social observado entre as comunidades latino-americanas nos Estados Unidos e em algumas das principais cidades de vários países.

"A todos los criticones que me quieran criticar,
Llegó el sonero...
A todos y a cada uno ahora voy a dedicar
Mi canto y soneo..."
(Hector Lavoe, em "Sonero Mayor", com Willie Colón. LP Cosa Nuestra, Fania, 1971)

Para começar, gostaria de propor a você um questionamento: o que é um Sonero? O que é ser Sonero? Simplesmente defini-lo como um mero cantor de Salsa não seria suficiente. O conceito de Sonero vai bem mais além do que isso. Pode-se definir um Sonero também como um cronista do seu tempo e do seu espaço, onde a sua vivência vai ajudar, e muito, a moldar o seu estilo, a sua forma de expressão.

A origem do termo Sonero vem de Cuba, mais especialmente para definir o cantor de Son, ritmo o qual a Salsa tem ligação direta. O Son é a forma básica da música cubana, criada no oriente da ilha. A princípio, consistia na combinação de guitarras e bongôs, com elementos musicais africanos, que tinham uma escala de cinco notas, em contraposição à escala européia de sete notas, e que se tornou padrão mundial. Outros instrumentos que se adicionaram a esta combinação foram o shekere e as maracas. Com o passar do tempo, também foram adicionadas as claves e as congas. Os metais só vieram a fazer parte do conjunto a partir do século XX.

Feita esta introdução, vamos falar sobre algumas características dos Soneros, de ontem e de hoje: talvez a mais marcante seja quanto à origem deles. Não conheço um Sonero sequer que tenha nascido em berço de ouro. Ao contrário, nasceram em bairros humildes, e aprenderam desde cedo a linguagem das ruas. Gente como Benny More, Miguelito Cuní, Abelardo Barroso, Roberto Faz, Cheo Feliciano, Ismael Rivera, Hector Lavoe... todos eles aprenderam desde cedo o vocabulário dos Barrios Obreros, participaram de festas populares, tiveram a formação que só o contato com a população mais humilde pode dar. Alguns, como Benny Moré, Cheo Feliciano e Ismael Rivera começaram suas trajetórias musicais como percussionistas, improvisando bongôs e timbales com latas de leite em pó.

Todos eles tiveram também a experiência de tocar e cantar em várias orquestras, forjando com o passar do tempo os seus estilos. Algumas orquestras, por sua vez, serviram como verdadeiras escolas. Em Porto Rico, por exemplo, orquestras como as de Willie Rosario e Bobby Valentin têm uma larga folha de serviços prestados à Salsa, lançando soneros como Tony Vega, Gilberto Santa Rosa (que por sua vez, tinha passado por Mario Ortiz e Tommy Olivencia), Junior Toledo, Guillo Rivera, Cano Estremera, Luisito Carrion, Rafu Warner e tantos outros. Assim também acontecem com as principais orquestras de Nova York, Colômbia, Venezuela, Panamá e de outros países. Apenas depois dessas experiências é que estes Soneros se saem como diretores de orquestra ou solistas.

Os estilos variam de acordo com a personalidade de cada um. Há os mais poéticos, como Oscar D'León, Ruben Blades e Domingo Quiñones. Há os mais agressivos, como Cano Estremera e Jerry Rivas. Há os que recorrem ao humor, como Marvin Santiago. E há os que combinam tudo isso, mas esses são raros: Benny More, Ismael Rivera e Hector Lavoe.

Todo Sonero que se preza tem também um dom natural para comandar as massas. O sonero é antes de tudo um showman, alguém que além de cantar, também dança e interage com o público. Sob esse ponto de vista, os soneros do Gran Combo de Puerto Rico, Jerry Rivas e Charlie Aponte, bem como o "filósofo" Tito Rojas, são imbatíveis na atualidade.

"Hay soneritos y sonerazos..."
(Hector Lavoe, idem)

Um abraço salsero, e que os bons sons vos acompanhem!

Bernardo Vieira S., Jr.

(c) 1998-2005, Bernardo Vieira S., Jr.