Make your own free website on Tripod.com

"Fiesta en el Solar..."

por Carlos Eduardo "Caiado" Ferreira Godoy Gomes (correspondente no Brasil da revista "Melómanos Documentos").

"Meu Encontro Com o Maestro Willie Rosario"

Conforme indicação do Jornalista Orlando Montenegro, editor do Jornal "Melómanos" de Cali, naquela manhã de sábado fui a Calle Cerra, parada 15 de Santurce em San Juan/Puerto Rico, na loja Viera Discos "La Casa Del Coleccionista".  Ao chegar, deparei com um lugar bastante simples, porém extremamente sortido, considerando o expressivo acervo de CDs, vídeos e publicações.

Logo na entrada, uma poltrona de vime e uma foto de Tite Curet Alonso que tinha seu escritório informal nos fundos da loja.  Tite é considerado um dos mais relevantes compositores da salsa, com mais de mil letras gravadas.

Logo percebi, ouvindo as conversas dos clientes, que aquele lugar era mais do que uma simples loja de discos. Era na verdade um ponto de encontro de colecionistas, radialistas, músicos, enfim uma verdadeira sede de confrades da música latina.

Como meu objetivo naquele momento era garimpar CDs, debrucei-me frente àquela interminável variedade, virando-os um a um.  Já tinha selecionado alguns quando entrou aquele senhor de chapéu e que foi efusivamente saudado pelos demais presentes. Lembro inclusive que chegou com um guarda-chuva, embora até aquele momento não estivesse chovendo.

Imediatamente o reconheci, era o Sr. Willie Rosário em pessoa. Ao fitá-lo diretamente, ele me cumprimentou com um movimento de cabeça.  Encorajei-me e fui direto falar com ele.
 - "Maestro Willie Rosário?" Perguntei-lhe como um menino frente a seu ídolo. Ao que ele respondeu-me humildemente:  - "Si, si...".

Imediatamente apresentei-me como um brasileiro que adorava salsa e tinha escolhido viajar pela segunda vez a Porto Rico para aproveitar ao máximo a oportunidade de reunir materiais, assistir shows, estabelecer contatos, etc.


Conversamos um pouco e lhe solicitei que me autografasse um disco seu que havia selecionado. O título do disco é "Otra Vez", em cuja contracapa ele prontamente redigiu uma amável dedicatória.  Selecionei mais alguns CDs e DVDs e, ao pagar, fui informado que naquela noite no Hotel El San Juan em Isla Verde, bem próximo ao hotel onde estávamos hospedados, ocorreria um show triplo: a comemoração dos 40 anos de El Gran Combo e como convidados Sonora Ponceña e Bobby Valentim. Imaginem se não estaríamos lá! Também foram prestigiá-los Marvin Santiago, Pedro Bull e Gilberto Santa Rosa. Bem... Mas este é um assunto para uma próxima matéria...

Decorrida uma semana, no sábado seguinte, voltei à Tienda do Sr. Rafa Viera, cujo slogan é o seguinte: "Si esta grabado, lo tenemos".  Naquela manhã além de reencontrar o Maestro Willie Rosário, o presenteei com dois discos de MPB, uma coletânea de Jorge Benjor e outro de Djavan. Bastante agradecido, declarou-se um fã da música brasileira que, segundo ele é muito rica em ritmo e de sofisticada harmonia.  Logo em seguida fui apresentado a Rafaelito Cortijo, filho do grande Rafael Cortijo, amigo e parceiro musical de maior ídolo de Porto Rico, Ismael Rivera  "El Sonero Mayor".  Rafaelito é um negro alto e magro, bastante humilde, que recentemente havia lançado um disco cantando as obras de seu pai, com ninguém menos que Tito Allen participando em alguns duetos. É claro que comprei seu disco com direito a dedicatória e autógrafo. Adquiri mais uns tantos CDs, penso que nas duas visitas foram quase quarenta e dois. Também comprei excelentes DVDs, tais como "Os 35 Anos de Bobby Valentin" e do Roberto Roena y Apolo Sound. Na minha opinião são imperdíveis; quem tiver a oportunidade de adquiri-los, que o faça. Se não gostar, eu indenizo.

Bueno... Mas vamos ao que interessa:  Maestro Willie Rosário!

Nascido em Coamo, Porto Rico, no dia seis de maio de 1930, foi batizado como Fernando Luis Rosário Marin. Desde menino demonstrou inclinações artísticas.
Aos seis anos de idade já recebia aulas de violão e também estudou saxofone. Quando completou 16 anos organizou um conjunto chamado Coamex ainda em sua cidade natal. Um ano mais tarde mudou-se para Nova York, passando a residir no Bairro Latino daquela cidade. Ali se desenvolveu como percussionista atuando nas Orquestras de Noro Morales, Aldemaro Romero e Johnny Segui. Naquela época, as orquestras de Tito Puente, Tito Rodriguez e Machito criavam um novo espaço para a música latina. Paralelamente, Willie Rosário estudava Jornalismo e Relações Públicas.

Ao dar baixa do Exército, uma noite foi ao Palladium Ballroom para ver a orquestra de Tito Puente que naquela ocasião tocava bateria. Impressionou-se tanto que começou a estudar bateria com Henry Adler e outro veterano músico chamado Willie Rodriguez.  O estilo de Ubaldo Nieto, timbalero de Machito, também o influenciou.

Passou a fazer parte da banda de Joe Quijano e Joe Segui. Com a experiência adquirida formou em 1958 a sua própria orquestra. Durante três anos  foi sucesso no famoso Club Caborrojeño de Nova York. Nesta banda cantavam Chivirico Dávila, Vitin Garay e Yayo, El Índio. Paralelamente à atividade de músico e bandleader, nesta época também era locutor, disk-jockey e inclusive apresentava um programa de receitas culinárias com Machito e sua irmã Graziela, célebre cantora da época. Atuou também com as orquestras de Herbie Mann e o Grupo Allegre All Stars.

Após três anos a banda começou a desintegrar-se com a saída primeiro de Chivirico Dávila.  Em 1962, Willie Rosário declarou ter sido vítima de um "golpe de estado" já que Yayo El Índio, embriagado com a fama adquirida, formou sua própria banda.  A maioria do grupo permaneceu no Club com nova formação exceto um, segundo Willie, o único decente e honesto, Bobby Valentim, naquela época seu trompetista.

Inicia-se nova fase com a seleção de outros músicos que tinha Frankie Figueroa na voz. Com esta nova formação gravam "El Bravo Soy Yo". Nesta fase Willie altera uma concepção até então vigente adotando a partir daí um saxofone barítono e quatro trompetes provocando um som diferente. Willie já tinha gravado vários LPs, porém seu primeiro sucesso, que ficou por semanas no hit parede de Porto Rico, foi " El Barrio Obrero a La Quinze" na voz de Chamaco Rodriguez.

Nessa época Willie retorna à ilha de Porto Rico e consolida-se no ambiente salsero. Àquela altura, sua orquestra era uma verdadeira universidade de música, sendo que um expressivo contingente de músicos e cantores da salsa atual e Latin Jazz tocou com Willie. Alguns que passaram por sua banda foram: Gilberto Santa Rosa, Tony Veja, Frankie Figueroa, Frankie Rodriguez, Meñique Barcasnegras, Chamaco Rivera, Junior Toledo, Bobby Concepcion, Pupy Cantor, Josué Rosado, Primi Cruz, Bernie Perez, Henry Santiago, Rico Walker. Atualmente seus cantores são Canito Rodriguez, Omar Negron e Davis Anastácio.

Seus maiores sucessos foram "El Barrio Obrero a La Quinze", El Antifaz", "La Essencia Del Guaguanco", "La Realidad", "Supermam", "Anuncio Classificado", "Botaram la Pelota", "Lluvia", "Busca el Ritmo", "Negrita Linda", entre outros.

Foram até agora produzidos 38 álbuns e sua última produção editada no ano passado foi um CD duplo gravado ao vivo em Cali, Colômbia, que vem acompanha de um DVD com partes do show.

Dentre as inúmeras homenagens que Willie recebeu durante sua profícua carreira, destaca-se uma especial concedida pelo Senado Nacional pelos seus 40 anos dedicados à música e, por conseqüência, na divulgação internacional de Porto Rico.

Considerando a expressiva prolificidade de sua obra, cerca de 400 temas gravados, é claro que não tive a oportunidade de, até agora, conhecê-la na totalidade. Porém não posso deixar de emitir um juízo de opinião afirmando que Willie Rosário é uma das maiores lendas vivas da salsa e tem permanecido em posição de destaque há mais de 40 anos neste complexo e concorrido ambiente.



Especificamente como músico e timbalero, sua execução no instrumento é predominantemente rítmica no sentido de imprimir a condução dos temas. Utiliza-se com extrema habilidade da cáscara e das campanas, alguns solos e redobles, privilegiando sempre o ritmo. Não é um timbalero show ou virtuoso como Tito Puente, Endel Dueño ou Orestes Vilató só para citar três, que se caracterizam por aplicar inesgotável repertório de movimentos que, não raras vezes, podem se confundir com performances malabaristicas.

Concluindo, foi um prazer ter conhecido pessoalmente este grande músico e sua foto estará para sempre em minha pequena galeria de grandes ídolos.

Caiado 

"Guateque na Fazenda Sta. Isabel"

Aconteceu durante a segunda semana de janeiro em Porto Alegre, o lll Fórum Social Mundial. Entre as delegações dos 150 países que enviaram representantes, Cuba participou com uma comitiva oficial de 150 pessoas. Entre elas estavam presentes personalidades de diversos segmentos da sociedade cubana, tais como músicos, atletas, escritores e artistas plásticos. Para receber os visitantes, foi criado um espaço denominado “Casa de Cuba”, onde aconteceram exposições de arte, divulgação de material cultural, bem como shows diários com músicos cubanos.

Dentre os diversos músicos que se apresentaram na noite do dia 24, merece destaque o grupo Vocal Sampling, que com apenas seis integrantes consegue, além de cantar músicas do repertório cubano, reproduzir simultaneamente o som de instrumentos utilizando apenas o recurso de voz. O efeito é fantástico dando a impressão que se está diante de uma orquestra.

Deve ser também registradas a excelente qualidade e performance do grupo David Alvarez y Juego de Manos, uma verdadeira banda cubana.  Foi impressionante apreciar a versatilidade musical de seus integrantes, sua sonoridade e a empatia que estabeleceram com o grande público presente.  Como não poderia ser diferente, a apresentação do grupo terminou em um grande baile, para a alegria dos brasileiros e todos nossos irmãos latinos americanos presentes. 

Como se isso não bastasse, como evitar a emoção de termos “bailando con nosotros” verdadeiros ícones do esporte olímpico como Felix Savón e Alberto Juantorena, medalhas de ouro do atletismo, Teófilo Stevenson, medalha de ouro do boxe, Mireya Luis, Ana Fidélia Quirot e Oleidis Menéndez, medalhas de ouro do vôlei, atletismo e lançamento de dardo, respectivamente.

Caiado, dançando com Mireya Luis. Ao lado, Alberto Juantorena.

Em razão de meu especial interesse pela percussão latina, tive a oportunidade em conversando com os músicos, de trocar informações com o percussionista do Juego de Manos, Damian, que com sua amabilidade se dispôs a ministrar os ensinamentos básicos da percussão Cubana para mim e dois amigos. No sábado á tarde, após encontrá-lo no Hotel nos dirigimos ao apartamento em Porto Alegre para receber as lições teóricas e praticar os exercícios de fundamento para Conga.  Foi uma tarde muito agradável e tremendamente proveitosa.  À noite, a banda realizou outro show na Casa de Cuba.  Embora tenha ocorrido um imprevisto de ordem técnica com o contrabaixo no inicio do espetáculo, o episódio passou praticamente desapercebido graças à imensa capacidade de improvisação dos músicos que mantiveram o público bailando animadamente até a solução do problema.  Na seqüência do show o público continuou participando ativamente, bailando e acompanhando em coro as músicas que a banda executava.

Como expressão de minha gratidão e da hospitalidade gaúcha, convidei nossos novos amigos para um churrasco na Fazenda Santa Izabel.  Presenças confirmadas, providenciei o transporte para o grupo de 13 músicos. Foram então convocados os Amigos Salseros de Porto Alegre para que se juntassem a nós. Simplesmente indescritível o clima de alegria e integração Brasil-Cuba.  Ao som de músicas cubanas de meu acervo que considerava limitado, recebi comentários elogiosos de alguns músicos ao declararem que nem em Cuba é comum uma discoteca com aquela quantidade e variedade de CDs de Salsa. Evidentemente que fiquei muito orgulhoso e satisfeito, já que para chegar a esse ponto, foram anos e anos de pesquisa, busca e coleta de CD por CD até reunir o acervo de hoje.  E, apesar das dificuldades de encontrar no Brasil cds desse específico gênero musical, fica a motivação para continuar buscando cada vez mais ampliar minha salsoteca.

Na sala da casa um verdadeiro “guateque cubano” com música ao vivo, já que os integrantes de "Juego de Manos" pianista, tresero, baixo, conga, bongô e demais instrumentos faziam “el sonido perfecto” para o deleite dos bailadores.  Após a pausa para o churrasco, “la fiesta” continuou regada a “ron y cerveza” com o baile rolando até as 20 horas, hora combinada com motorista para o retorno ao Hotel.

Festa cubana em Guaíba

 Na segunda à noite aconteceu o show de encerramento da Casa de Cuba, com  maior público do que sábado e que, segundo a impressão dos amigos presentes, foi outro grande sucesso.

Como despedida, na terça à noite, combinamos de levá-los a uma casa de samba onde tocava um grupo local.  Nesta noite apenas cinco integrantes de Juego de Manos estavam presentes. No decorrer da noite, em meio ao animado baile, nossos amigos foram convidados a dar uma “canja” de son cubano. Com apenas dois instrumentos originais da banda, “el tres”, e “el bongó”, e os outros três músicos utilizando alguns instrumentos de percussão de samba, com os quais não tinham familiaridade, realizaram, no improviso, um verdadeiro show. Como se não bastasse, revelaram-se excelentes bailadores de samba.  Neste clima, a festa foi até quase ao amanhecer.

 Na despedida, trocas de endereços e promessas de permanente contato. E quando formos a Cuba, somos convidados especiais do grupo que nos ofereceu hospedagem em suas residências.  Fiestas inovidables”... O prazer e a emoção de conviver com este pessoal foi algo maravilhoso o que, no meu entendimento, indica que a música seja a mais expressiva das manifestações culturais do homem que, através dela, ocorrem identificação e afinidade entre pessoas e grupos de distintas nacionalidades.

Para finalizar, quero agradecer ao grupo de Amigos Salseros de Porto Alegre, que, com sua presença, foram atores fundamentais para o sucesso deste inesquecível compartilhar.

 

Caiado                    

David Alvarez y Juego de Manos

·        David  - diretor, arranjador e cantor

·        Loides  -  flauta e percussão menor

·        Gaspar  -  baixo

·        Yuxini  -  teclado

·        Jose  -  timbales

·        Luis  -  bongô

·        Yan  -  tres

·        Damian  -  conga

·        Thommy  -  tropete

·        Abrahan  -  trombone

Para saber mais sobre David Alvarez y Juego De Manos, CLIQUE AQUI

(c) 1998-2005, Bernardo Vieira S., Jr.