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SALSA – A CONVERGÊNCIA DOS RITMOS LATINOS

por Mário "Speedy" Gonzales.

 

parte 3 – O Guaguancó e A Guaracha

 

Os salseros da primeira geração (finais dos 60’s e inicio dos 70’s) tiveram um dilema de ordem semântica com o uso de determinadas expressões que outrora tiveram um significado bem claro e contundente. Era comum os latinos usarem expressões como “vamo’ a guarachar”, por exemplo, e cujo significado acabou sendo definido mais pelo seu uso popular do que por sintaxes gramaticais ou verificações etimológicas.

 

A Guaracha e o Guaguancó tiveram seu papel importante nas sessões de lazer das comunidades cubanas, ao invés do que muitos pensam o Guaguancó fora de ser um ritmo musical é mais uma das variantes da Rumba, esta notoriamente mais um acontecimento festivo-dancístico do que propriamente um estilo de musica. Expressões como “tocar uma rumba”, por exemplo, não condizem com a verdadeira essência conceitual da Rumba já que esta não se toca e sim se participa dela.

 

Os elementos rítmicos que inicialmente fizeram parte da Rumba tais como colheres, gavetas, caixotes de embalagens, frigideiras e outros utensílios, foram com o passar dos anos sendo substituídos por elementos de percussão até chegar a um conjunto de tambores.

 

A Rumba apresenta três modalidades de estilo rítmico e coreográfico diferentes, “El Yambú”, “La Columbia” e “El Guaguancó”, esta ultima modalidade foi quem mais influenciou à salsa e o son, por isso a sua escolha para este escrito.

 

 

O GUAGUANCÓ

 

No seu “Glossário de Afronegrismos” - 1924, o musicólogo cubano Fernando Ortiz define o Guaguancó como: "Nombre de un danzón que se bailaba en la Habana por 1893." (Nome de um Danzon  que se dançava em La Habana por volta de 1893).

 

Existe uma divergência quanto ao real origem da Rumba e conseqüentemente de uma das suas variantes o Guaguancó, há inclusive um comentário polêmico feito pelo grande percussionista cubano Mongo Santamaria que afirmava que o Guaguancó não era outra coisa senão um negro cubano tentando cantar rumba flamenca. De fato é inegável a presença da décima espanhola (andaluza especificamente) na sua estrutura o que corroboraria a sentença, para alguns exagerada, do brilhante Mongo.

 

O prestigioso musicólogo cubano Odilio Urfé nos ensina que: (...) ”Melodicamente a Rumba-Guaguancó se projeta com evidente tipicidade mas constantemente se ve pressionada pelo estilo cadenciado do canto andaluz, especialmente nas –dianas- que é a parte da estrutura que da inicio a cada canto, e também na hora em que o cantante improvisa respondendo aos coros”...

 

Segundo o próprio Urfé a verdadeira Rumba nascida nas “Chozas Habaneras” (Solares de La Habana), se derivariam então dos orfeões e coros espanhóis que em alta proporção se fizeram presentes na colonização hispano-americana.

 

Assim verificado, no Guaguancó, a melodia tem a cadencia andaluza. A parte rítmica esta composta de três tambores ou cajones (caixotes) de madeira (preferencialmente de onde vinha embalado o bacalhau) dai que se lhe conheça também como Rumba de Cajon principalmente quando se improvisa com as caixas acima mencionadas e no lugar das claves de madeira se usam cucharas (colheres), na falta destes, usavam-se cadeiras, mesas, portas, armários, garrafas e tudo o que possa gerar algum ritmo, fazendo um repique de 6x8, algo assim como uma sorte de diversos Hermetos Pascoal fazendo a sua musica.

 

Na sua monumental obra “Cuba y sus Sones” o musicólogo Natalio Galan descreve a dança do Guaguancó como, “a representação do assedio sexual do homem à mulher num coreográfico jogo de atração e repulsa, de aproximação e de fuga”, esta modalidade de dançar é habanera e provem da liturgia secreta do Abakuá fundada no porto de Regla e de ascendência carabali.

 

A expansão do Guaguancó em Cuba ocorre em 1902 quando se estabelece a Republica, os soldados habaneros levaram o ritmo até a província de Oriente, esta por sua vez como intercambio lhes entrega seus Sones e o Son toma seu rumo que a historia lhe reservou.

 

 

CELESTE MENDOZA “LA REINA DEL GUAGUANCÓ”

 

Aos seis de abril de 1930 nasceu em Santiago de Cuba, Celeste Mendoza, ela chegou a ser catalogada como “La Reina del Guaguancó”, pela maneira tão singular com que interpretou este genero musical da musica de Cuba.

 

Celeste começou a sua carreira artística por volta de 1950 em La Habana inicialmente formou parte dos corpos de baile do Teatro Martí e do famoso Cabaret Tropicana.

 

 Celeste Mendoza “La Reina del Guaguancó”

 

Integrou como cantante o “Cuarteto de Facundo Rivero” e posteriormente começou a se apresentar como solista.

 

Por mais de 40 anos incursionou em distintos gêneros musicais entre os que se encontram o Son, a Guaracha, o Bolero e claro, o Guaguancó.

 

Gravou vários discos para indistintas produtoras musicais, tanto cubanas como de fora da ilha tendo participado inclusive em vários documentais promovidos pelo Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográfica.

 

Celeste Mendoza em documental do Instituto Cubano de arte e Industria Cinematográfico

 

Apresentou-se em diversos paises, mas foi no Japão onde teve grande acolhida pela critica e publico. Conseguiu superar as barreiras do idioma, pois conseguiu sucesso em paises em que não se fala o espanhol.

 

Faleceu em La Habana em 21 de novembro de 1998.

 

 

A GUARACHA

 

O termo Guaracha, de acordo com o brilhante investigador musical Natalio Galán significa “bailador” em dialeto Guanche das Ilhas Canárias.

 

Outro escritor de sobrenome Pichardo afirma que provem da fonética indocaribenha e outro expert musical chamado Zayas voltou à Europa, mas precisamente à região espanhola de Andalucia para confirmar a sua origem.

 

Na verdade todos eles estão corretíssimos já que ao igual que o Son a Guaracha é estritamente mestiça.

 

No que se refere ao seu aspecto musical, a Guaracha (segundo nos ensina a investigadora cubana Maria Argelia Vizcaino) se escuta em La Habana desde abril de 1583 quando Torrequemada e o Governador Gabriel de Luján concorriam politicamente ao cargo do poder. Os trovadores nas ruas e nas praças publicas a cantavam expressando a sua critica mordaz à situação vigente com um coro que na época dizia: ...”Que Dios te perdone Gobernador”.

 

Obviamente o seu tom rítmico diferia em muito da atual assim como de outros ritmos que se conheceram até o século passado.

 

Dado ao seu espírito burlesco, a Guaracha passou com facilidade das praças públicas e ruas para o teatro e para os espetáculos circenses ou teatro de bufos como era conhecido. Existe um registro histórico a maneira de crônica em que se afirma que em 1598 foi representada em La Habana uma comedia titulada “Los Buenos en el Cielo y Los Malos en la Tierra”. Sofre uma nova transmutação e a Guaracha vira um baile junto com outras danças nacionais cubanas como o Fandango, o Paso Purichinela e a Contradanza.

 

Ate 1813 a Guaracha continuava apenas como um baile a ser tocado nos intervalos teatrais, isso mudaria de rumo com a aparição de uma modalidade cantada denominada de “Sungambelo” (...de los sungambelos que he visto en La Habana, ninguno me gusta, como el de tu hermana..., dizia esse tema), sungambelo teria um significado similar ao das bundinhas do axé baiano e trazia como inovação a inclusão de um “montuno” no final, antecipando desta forma ao Son, daí a sua decadencia nos anos 20’s quando o Son toma vigor e se expande até para fora das fronteiras cubanas.

 

Numa entrevista ao investigador francês Laurent Valois, o saudoso Compay Segundo declarou que por volta dos anos 10’s ainda não existiam em Santiago de Cuba soneros destacados, pois ao parecer estes ainda estavam confinados nas zonas rurais nos arredores de Mayari e Guantanamo. De acordo com Compay o primeiro a tocar sones com algum impacto foi Miguel Matamoros nos anos 20’s, assim a tese do auge guarachesco se confirma quando Compay Segundo também afirma que o grande nome musical na epoca era Sindo Garay e seus repertórios a base de “serenata, bolero e guaracha”.

 

Ao contrario do Son, que foi perseguido e proibido pela sua tônica coreográfica, a Guaracha o foi por causa da sua lírica de duplo sentido e de critica política constante aos governantes, um exemplo disto ocorreu em 13 de janeiro de 1869 no Teatro Villanueva em La Habana quando se apresentou uma peça na qual o tema principal era a guaracha “Ya Cayó” (“Já Caiu”) em franca alusão à guerra de libertação que se desenvolvia em terras do oriente cubano.

 

A finais do século 19 a Guaracha torna-se mais independente da sua conotação inicial de baile e a picardia cubana encontra nela o marco ideal para desenvolver a sua lírica de humor, assim a sua formula pura de inspiração e coro permitiu estabelecer o desenvolvimento inicial de um tema para depois sim seguir com a velha formula tradicional.

 

As guarachas se acompanham instrumentalmente de guitarra espanhola, guiros e maracas, no seu ultimo estagio se incorporou o Tres Cubano. Os conjuntos mais modernos incluem clave e bongôs.

 

A principal característica da Guaracha é a apresentação de um dialogo entre o vocalista e o coro o qual vai evoluindo ate a seção final de rumba.

Durante os dourados anos 60’s teve auge uma variante da Guaracha denominada Guapacha. A inícios desta mesma década, Damaso Perez Prado cria uma modalidade musical denominada Dengue, que continua a linha estilística de sua inspiração e que provem do mambo com raízes oriundas da Guaracha.

OS GRANDES EXPOENTES DA GUARACHA

Ñico Saquito

 

Antonio Fernandez, mais conhecido como Ñico Saquito, nasceu na cálida Santiago de Cuba, cidade situada a aproximadamente 900 km de La Habana um 17 de janeiro de 1902, de jovem trabalhava como ferreiro e nas horas vagas aprendeu a tocar o violão. Aos quinze anos de idade começa a sua trajetória musical ingressando no Cuarteto Castillo, pelos anos 40’s integra o Grupo Tipico Oriental de Guillermo Mozo, passando a atuar no famoso Cabaret Montmartré em La Habana.

 

 Ñico Saquito grande expoente da Guaracha

 

Por esses anos eram freqüentes as suas apresentações na radio RHC-Cadena Azul e na Radio Cadena Suaritos, isso até emigrar para Venezuela em 1950. Este fato se constituirá em importante quando a sua influencia se faça presente na lírica salsosa, principalmente em Venezuela (pais que o adotou) e na Colômbia, logo de 10 anos fora de sua terra natal volta para Santiago de Cuba e forma “Los Guaracheros de Oriente” celebre conjunto que influenciou a varias gerações salseras.

 

Saquito só interromperia a sua carreira musical em 04 de julho de 1982 quando vem a falecer, mas antes ainda gravaria com Eliades Ochoa e seu “Cuarteto Patria”.

 

Ñico Saquito em produção internacional

 

Ñico Saquito é reconhecido como o máximo expoente da guaracha, seu estilo caracterizado por uma linha musical de sabor pícaro incorporou  situações risíveis na forma de letras gerando um legado para as posteriores gerações salseras que  potenciaram esta lírica em vários estribillos das canções de salsa, bem como influenciaram a artistas da envergadura de Oscar D’ Leon e Fruko só para citar os representantes da terra “llanera” e da terra do café.

 

Varias peças famosas são de sua autoria como “Al vaivén de mi carreta”, “Jaleo”, “No dejes camino por vereda”, “La negra Leonor”, "¿Qué te parece mi Compay?", “Adios Compay Gato”, “Los que son y no son”, “Meneame la cuna Ramon” e tantos outros sucessos hoje incorporados ao repertorio de varias agrupações cubanas tais como  NG La Banda, Los Van Van e Adalberto Alvarez y Su Son só citando alguns.

La Sonora Matancera e Celia Cruz

A rigor La Sonora Matancera seria motivo para um artigo extenso e personalizado, a sua citação neste escrito decorre da necessidade de demonstrar a sua importância para o ressurgimento da Guaracha nos anos 50’s e também a de nos apresentar a sua grande representante feminina que é Celia Cruz.

La Sonora é criada por iniciativa de Valentin Cané em 12 de janeiro de 1924, mas seu grande condutor, porém, foi Rogelio Martinez que se incorporou à agrupação em 1926.

La Sonora em seus inícios

O repertorio de La Sonora era completíssimo, abrangendo todos os estilos musicais cubanos e sempre se destacou indistintamente em todos eles, mas na fase da sua vocalista Celia Cruz depois reconhecida como a “Guarachera de Cuba” é que este gênero toma fôlego e ressurge e se incorpora ao cenário internacional.

Há registros anteriores a Celia em que a manifestação guarachera da Sonora se torna clara e acontece exatamente em 1926 quando visitam pela primeira vez La Habana e se apresentam no Teatro Alhambra berço do teatro bufo e conseqüentemente “terreiro guarachero

É a partir de 1948 quando Celia Cruz grava seu primeiro sucesso com La Sonora (“Cao Cao Maní Picao”) que a agrupação adota grande quantidade de guarachas no seu repertorio e em 1950, quando ocorre a sua internacionalização, é que esta agrupação leva a Guaracha pra todos os cenários latino-americanos, nesta parte do continente (América do Sul) Ñico Saquito cumpriria seu papel difundindo-a principalmente na Venezuela.

 Celia “La Guarachera Cubana” e La Sonora Matancera

Como a principal característica da Guaracha é a sua lírica, era necessário que os compositores se especializem neste detalhe, assim vários autores se destacaram na composição deste ritmo tais como Enrique Guerrero, Carbó Menendez, Jorge Anckerman e o próprio Ñico Saquito, por outro lado fora Saquito e La Sonora outros interpretes fizeram sucesso com a Guaracha, os mais famosos são Raimundo Valenzuela, Machito, Los Guaracheros de Oriente, Daniel Santos, Servando Diaz e Miguel Failde, só para citar os mais reconhecidos.

Já com relação aos temas de Guaracha mais famosos, podemos citar a “Bilongo (La Negra Tomasa)” composta nos anos 40's, outro exemplo seria “Corneta” cantada por Daniel Santos.

 

 

 

Imortal Daniel Santos, guarachero precursor.

 

Mais modernamente poderíamos citar a famosa guaracha “Llorarás” de composição de Oscar D’ Leon e eternizada, com ele como vocalista, na agrupação venezuelana “La Dimension Latina” em 1975.

 

 

A CONVERGENCIA DO GUAGUANCÓ E A GUARACHA COM A SALSA

 

Quando afirmamos a existência da convergência dos ritmos latinos com a salsa não necessariamente devemos pensar apenas na parte musical, na verdade a Guaracha trouxe para a salsa a sua estrutura lírica e a colocou a serviço desta. Os famosos “estribillos” na salsa indubitavelmente têm a sua fonte na Guaracha, inclusive como vimos acima o Son também sofreu esta influencia (se é que podemos chamar de “sofrimento” a este fabuloso acontecimento).

 

Assim por muito tempo a estrutura lírica salsosa estava amparada na criatividade guarachera de apresentar a realidade mais crua de maneira alegre e saborosa, até na Salsa Conciencia de Blades pode se apreciar esta influencia, lembremos do tema “Plástico” por exemplo quando Ruben nos canta:

 

...”Ella era una chica plástica de esas que veo por ahí

(...) Ela era uma garota “plástica” dessas que tem por ai)

 

De esas que cuando se agitan sudan Chanel Number Three

(Dessas que quando se agitam suam Chanel Number Three)

 

Que sueñan casarse con un doctor

(Que sonham em se casar com um doutor)

 

Pues el puede mantenerlas mejor

(Pois ele pode sustenta-las melhor)

 

No le hablan a nadie si no es su igual

(Não falam com ninguem de outro nivel social)

 

A menos que sea fulano de tal

(A menos que seja “fulano de tal”)

 

Son lindas delgadas de buen vestir

(São lindas, esguias de bom “vestir”)

 

De mirada esquiva y falso reír

(De olhar esquivo e falsas ao sorrir)

 

El era un muchacho plástico de esos que veo por ahí

(Ele era um garoto “plastico”, desses que tem por ai)

 

Con la peinilla en la mano y cara de yo no fui

(Com a escovinha na mão e cara de “eu não fui”)

 

De los que por tema en conversación

(Dos que por tema em conversação)

 

discuten que marca de carro es mejor

(discutem qual marca de carro é a melhor)

 

De los que prefieren el no comer

(Dos que preferem nem comer)

 

Por las apariencias que hay que tener

(Pela aparencia que tem que ter)

 

Pa’ andar elegantes y así poder una chica plástica recoger

(Andar elegantes e assim poder uma garota plastica ter)...

 

Este tema se enquadraria perfeitamente em qualquer historia da época do teatro bufo, a grande diferença é que Blades traz a critica para a época atual da nossa sociedade e se vale da estrutura lírica guarachera para apresentar seu protesto com este fenômeno social de desigualdade.

 

Plástico,  obra prima da salsa conciencia de Blades no LP Siembra de 1978

 

Já o Guaguancó nos trouxe principalmente a coreografia na maneira de dançar, os trejeitos e giros vem propriamente do “vacunao” que é a representação da procriação e o assedio sexual do homem na mulher, Isto logicamente foi evoluindo até chegar nas coreografias com passos mais elaborados, mas sempre trazendo o casal como protagonista.

 

A resposta do cantante aos coros também é outro ponto convergente do Guaguancó com a salsa bem como a formação da Rumba nas descargas após a improvisação e inspiração lírica.

 

Embora não seja propriamente um tema deste gênero (mas confundido como tal) “La Esencia Del Guaguancó” de Johnny Pacheco e do mestre Catalino Tite Curet Alonso caracteriza bem os seus primórdios quando disse: ...”la tumba que ya te llama, el tambor que la reclama y un coro que dice asi: escuche usted la esencia del guaguancó...”.

 

 

Salsaudações

 

Mario “Speedy” Gonzales

 

 

 

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