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Convergência Dos Ritmos Latinos - 2a. Parte:

O Mambo

 

Logo após um parêntese forçado, estamos de volta com a continuação da Convergência dos Ritmos Latinos com a Salsa, a bola da vez é o Mambo, ritmo contagiante que teve seu apogeu nos anos 50’s.

 

O significado do vocábulo Mambo

O vocábulo MAMBO provem do dialeto “ñañigo” falado em Cuba pelos integrantes da Sociedade Secreta Abacuá, que é uma confraria esotérica, mágico-religiosa, conformada só por homens provenientes do Calabar (hoje uma província da Nigéria) e que se estabeleceram no porto habanero de Regla em 1836, estes homens eram negros de origem carabalí.

De acordo com Jorge e Isabel Castellanos, no seus quatro volumes de “Cultura Afrocubana”: “...se compararmos os Abacuás com o Mitraísmo ou com o Orfismo, com os rituais de Eleusis ou de Isis, ou com a seita pitagórica, ficarão evidentes as suas semelhanças. Todas tem em comum, fora do seu hermetismo, uma serie de crenças e praticas totalmente diferentes às outras Reglas (Ochá, Conga, Carabalí, dentre outras menores). Provem da expressão “abrete cuto  güiri mambo” (significa abre os teus ouvidos e escuta o que vou dizer), que procede do bantú da África Ocidental ao se referir ás “conversações com os Deuses” e também do Haiti onde em vodu significa “sacerdotisa”. (Tomado de “Cultura Afrocubana” – Edições Universal, Miami, Florida, USA, 1994)

 

Quem criou o Mambo?

O Mambo é talvez o gênero musical que mais controvérsia criou na historia da musica popular cubana. É quem mais “criadores” tem e versões distintas quanto a sua origem. Mas são quatro os que saíram à frente na polemica da paternidade do Mambo, a seguir:

 

Orestes e Israel “Cachao” Lopez

 Israel “Cachao” Lopez o primeiro a usar o vocábulo mambo

 

Em 1937 estes músicos cubanos introduziram um ritmo novo na terceira e ultima seção da obra titulada precisamente “Mambo” que originalmente era considerada um Danzon. Esta obra foi executada um ano depois pela Orquesta de Arcaño Y Sus Maravillas. Este ritmo sincopado era bem similar ao utilizado pelos executantes do “Tres Cubano” (instrumento de cordas usado no Son) e que especificamente interpretavam o Son Montuno.

Nos primeiros anos da década de 40, músicos como os próprios irmãos Lopez, Andrés “Niño Rivera” Echevarria, Bebo Valdes e o pianista René Hernandez (este ultimo trabalhando para a Orquesta de Julio Cueva) independizaram esta ultima parte do Danzon (já denominada Mambo) nos seus arranjos musicais começando assim a sua evolução músico-ritmica. A partir de este fato são realizadas experimentações no ritmo, melodia, harmonia (através do uso de acordes dissonantes) e principalmente na instrumentalização através da mudança nas funções musicais das trompetes, trombones e saxofones e dos instrumentos de percussão cubana tais como as tumbadoras e as pailas. Explorou-se mais a aproximação do formato orquestral das Jazz Bands na maioria dos casos.

Assim e como resultado de todas estas movimentações musicais, já em 1949 o Mambo causava alvoroço entre os “bailadores cubanos” e tinha grande aceitação  popular.

 

Arsenio Rodriguez

Arsenio, criador do ritmo “Diablo”

“El Ciego Maravilloso” como era conhecido Arsenio, foi um talentoso musico cubano que também se atribuiu a criação do Mambo, embora a denominação que ele lhe deu ao novo ritmo foi “Diablo”.

Arsênio resenha a sua criação afirmando que seguiu a linha musical originaria dos descendentes de congos os quais tocavam uma musica chamada “Tambor de Yuca” e no meio das “controversias” (conversas) que formavam um com outro cantante se inspirou e criou a base do Mambo, em entrevista à revista cubana “Bohemia” de 1955 afirmou que já estava experimentando com esse ritmo desde 1934. O tema que Arsenio insinua ser o primeiro Mambo (na verdade “Diablo” segundo a denominação que ele próprio lhe deu) foi “Yo Soy Gangá” da sua autoria em 1938, portanto no mesmo ano que Arcaño gravou o “Mambo” de Lopez e que este registrou como de sua autoria em 1937.

 

Dámaso Perez Prado

 

Perez Prado, impulsionador do mambo

Apesar de que nas “partituras” pareçam ser os irmãos Lopez os criadores do Mambo ou que finalmente alguém confirme a historia contada por Arsenio Rodriguez uma coisa fica bem clara para quem gosta deste ritmo e é a de que foi Damaso Perez Prado quem criou o Mambo tal e como o conhecemos.

Foi ele quem estabeleceu o novo formato musical a partir de 1943 quando na orquestração do tema “La Ultima Noche” de autoria de Boby Collazo e gravado em 1944 por Orlando “Cascarita” Guerra com a “Orquesta Casino La Playa” introduze no piano e nos saxofones alguns dos elementos que mais tarde consolidariam o Mambo.

 Arcaño o primeiro a incluir o mambo em seus temas

O público gostou muito desse arranjo diferente e Perez Prado resolveu aumentar o tempo de duração da seção de Mambo, se retira da Orquesta Casino La Playa e forma a sua própria levando consigo alguns músicos inclusive o vocalista Cascarita. Acrescenta uma quinta trompete e um trombone de vara à formação original fazendo com que estes instrumentos “viagem por cima” dos saxofones, o resultado foi apoteótico embora a critica não tenha gostado do que Prado fez com o “novo ritmo”.

 

Orquesta Casino La Playa com Perez Prado ao piano

Parece ser que ninguém só não reparou na promissora inovação senão que ainda por cima Prado sofreu com a falta de credibilidade no meio artístico pois não conseguia executar seu “rebento” nas casas que lhe negavam trabalho e muito menos grava-lo, a sua única tentativa (em Cuba) se remete a um disco de 45 rpm (a maneira de demo) contendo os temas “Mambo Caén” e “So Caballo”, realizado com a participação de músicos de categoria e amigos de Prado que o fizeram sem cobrar nada, ao parecer fascinados com os arranjos do artista. Dentre estes musicos se detacavam German Le Batard no sax alto, o violonista Vicente Gonzalez Rubiera “Guyun”, Osvaldo Urrutia no sax barítono e Reinaldo Mercier no contrabaixo.

O pequeno pianista parecia muito avançado para à época, algo assim já tinha acontecido com Bebo Valdes e seu ritmo Batanga e tambem com Niño Rivera e seu Cubipop.

Em 1947 realiza uma excursão por Argentina e Venezuela e em 1948 visita pela primeira vez o México, a terra que futuramente lhe serviria de plataforma para o seu sucesso.

Sem reconhecimento na sua terra natal e sabotado pelo cartel americano que dominava nesse então o mercado musical cubano, Perez Prado resolve, em 1949, instalar-se no México. Segundo o musicólogo cubano Leonardo Acosta, Prado recebeu no México o apoio incondicional da vedete Ninon Sevilla (depois consagrada como a primeira a executar coreografias no gênero) e de outros cubanos residentes na capital azteca, o bongocero Clemente “Chicho” Piquero foi quem conseguiu tramitar com sucesso a sua inscrição na União de Músicos Mexicanos.

 Ninon Sevilla, a primeira a coreografar o mambo

Trabalhou muito, como sempre o fez, experimentando e desenvolvendo um estilo que misturava diferentes plataformas sonoras mas com dois registros básicos: as suas agudas trompetes (contam que em algumas gravações os trompetistas as tocavam, ao seu pedido, próximas e contra uma parede para poder obter a ressonância que ele buscava) e por outro lado o tom grave dos saxofones que eram os que levavam a sincopa. O primeiro mambo que gravou no México foi “José y Macamé”, este seguia uma linha mais lenta e não alcançou a popularidade dos posteriores.

Para tocar o Mambo de Perez Prado era necessário ter na orquestra uma seção de metais bem forte e definida, assim méxico deu a Prado exatamente o que tinha de melhor, os fortes lábios mexicanos, herança das bandas militares (“chupa-cobres” como as chamavam nesse então os mexicanos), as quais desde a época do Imperador austríaco Maximiliano I de Habsburgo (1863-1867) tinham estabelecido um marcante estilo de aplicar os lábios nas “boquillas”. Perez Prado soube capitalizar este detalhe como provam os formidáveis solos do trompetista azteca “Chilo” Morán entanto que simultaneamente ele “martelava” o piano introduzindo os “clusters” (seqüências de notas agudas) que são características do mambo.

Após o sucesso de “Al Son del Mambo” no teatro Blanquita de México junto ao seu cantante Benny Moré, Prado começou seu domínio no mercado musical mexicano com seus mambos e com suas aparições em vários filmes.

Em 1951 lança seu famoso tema “Que Rico Mambo” que foi seu primeiro êxito fora das fronteiras aztecas elevando-o a condição de artista de fama mundial. Prado toma o mambo executado por Arcaño e o submete a um processo de hibridização com o jazz, lhe sobrepõe o “quatro por quatro” do swing americano  e o converte no baile de salão por excelência da década dos 50’s. A sua orquestra apresenta os saxofones ao uníssono no registro grave entanto que as trompetes registram notas altas no agudo e fecha o esquema musical mantendo a percussão no ritmo sincopado cubano.

O musicólogo cubano Cristobal  Diaz Ayala explica a diferença  entre o mambo “à cubana” e o “mambo perezpradiano” da seguinte forma: ...” fica evidente que Perez Prado “usou” a palavra que tinha popularizado Arcaño e sua orquestra, mas fica mais claro que a sua musica é diferente daquela que Arcaño chamava de mambo ou terceira parte do danzon. Existem muitas diferenças começando pela formação instrumental da orquestra, a de Arcaño a base de violinos e flautas e a de Prado a base de metais, o toque de Arcaño é cadencioso já o de Prado é “nervoso” e "rápido”.

Ao fazermos a famosa pergunta de quem inventou o Mambo? a mesma que o grande Benny Moré se fez no tema “Locas por el Mambo” e se respondeu com o já clássico: “un chaparrito com cara de foca (um baixinho com cara de foca)” embora hoje se torne polemica, parece criar uma verdadeira atmosfera de justiça para com o pequeno pianista genial.

Só resta ao caro leitor tirar as suas próprias conclusões após ler esta resenha, um trabalho por demais dizer dos mais difíceis.

 

Continuemos com o Mambo

A febre do novo ritmo revolucionou o dia a dia das melhores bandas de musica latina em Nova Iorque inclusive as de Frank Grillo “Machito” e seus Afrocubans e as dos porto-riquenhos Tito Rodriguez e Tito Puente, assim Prado jamais foi reconhecido como o “Rei do Mambo” em terras do Tio Sam devido a que Machito já tinha obtido sucesso com a sua “propria versão” do Mambo com base nos excelentes arranjos do pianista Rene Hernandez (vide sexto parágrafo deste escrito) e a colaboração do genial Mario Bauzá.

Machito y su mambo diferente

Mas foi Tito Puente quem acrescentou ao mambo o som dos “Timbales” o saudoso timbalero afirmava sem ressalvas que o timbal era o instrumento mais importante de uma orquestra, pois é ele quem domina a seção rítmica.

É aqui a contribuição mais importante que o Mambo deu à salsa, ou seja a relevância que Puente (e o Mambo Nova-iorquino) deram ao som dos timbales e que posteriormente identificou a seção rítmica do movimento salsero nos seus primórdios nos anos 60’s.

 

 

Tito Puente o timbal como base da sessão rítmica

 

 

Tito Rodriguez o preferido dos bailadores

 

 

Rodriguez, Puente e Machito “Los Tres Grandes”

 

 

A decadência do Mambo

O Mambo trouxe consigo o primeiro sinal do que se veria nos dias de hoje com relação a sua maneira de dança-lo, ele prestigiava as coreografias e giros e principalmente caracterizou-se a sua forma de dançar por dar ênfase a movimentos rápidos e violentos o que lhe valeu a exagerada reputação de “baile lascivo”, quase um simulacro do ato sexual. Tanto foi o exagero que em 1952 o Cardeal de Lima, no Peru, proibiu terminantemente aos católicos de baila-lo.

 Dançar mambo era lascivo nos 50’s

 

Assim o “monstro” que Prado criou o fez sua própria vitima. Com as suas contorções quase “ginásticas” o Mambo  tornou-se difícil de ser dançado pelos mortais comuns e o que é pior acabou, via das suas acrobacias, separando os “parceiros” de baile. Isto custou caro ao criador pois a nova invenção de Enrique Jorrin, o Cha Cha Cha, permitia aos “bailadores” retomar o “corpo a corpo”. Fica a curiosidade de saber que poderia ter dito aquele Cardeal peruano sobre o Cha Cha Cha.

Com o ritmo de Jorrin em franca avançada, o Mambo trivializou-se a finais dos 50’s perdendo a sua força e conseqüentemente finalizando o seu papel na historia que depois se encarregaria de converge-lo com a salsa.

 

A convergência do mambo com a Salsa

No meu modo de ver, a principal convergência do Mambo com a Salsa, se dá principalmente na hora em que os músicos executam seus instrumentos “sem seguir o que está escrito” dando passo a uma descarga musical em uníssono, sempre depois do “soneo”  do vocalista. É óbvio que isso é facilmente perceptível nos arranjos da chamada “Salsa Dura”.

A base rítmica, como dizemos herdada da contribuição do “arredio à palavra salsa” Tito Puente, é outro ponto em que convergem, pois o timbal é quem toma a frente desta seção musical.

 

Temas e intérpretes do Mambo

Dentre os principais temas e intérpretes do Mambo podemos mencionar:

 

- Perez Prado - Mambo Nº 5

- Perez Prado - Mambo Nº 8

- Perez Prado - Que Rico Mambo

- Perez Prado - Locas por el Mambo

- Perez Prado - Cerezo Rosa

- Perez Prado - Patricia

- Perez Prado - Al Compas del Mambo

- Perez Prado - El Taconazo

- Perez Prado - Mambo a la Kenton

- Perez Prado – Café con Leche

- Machito & Sus Afrocubans - Mambo Mucho Mambo

- Machito & Sus Afrocubans - Blen Blen Blen

- Machito & Sus Afrocubans - Alex Mambo

- Machito & Sus Afrocubans - Maggie’s Mambo

- Machito & Sus Afrocubans - Mambo Infierno

- Machito & Sus Afrocubans - Mambo Jambo

- Machito & Sus Afrocubans - Relax And Mambo

- Machito & Sus Afrocubans - El Rey Del Mambo

- Machito & Sus Afrocubans - Holiday Mambo

- Machito & Sus Afrocubans – Cuban Fantasy

- Tito Puente - Mambo Inn

- Tito Puente - Ran Kan Kan

- Tito Puente - Mambo Gozon

- Tito Puente - Dancemania

- Tito Puente - Four Beat Mambo

- Tito Puente - Baile Mi Mambo

- Tito Puente - Tequila

- Tito Puente - 3D Mambo

- Tito Puente - Mambo Beat

- Tito Puente - Mamborama

- Tito Rodriguez - Mambo Mona (Mama Guela)

- Tito Rodriguez - Mambo Tropicana   

- Tito Rodriguez - Mambo Manila

- Tito Rodriguez - Cara de Payaso

- Tito Rodriguez - Mambo La Libertad

- Tito Rodriguez - Donde Estabas Tu

- Tito Rodriguez - Chen Chere Gunma

- Tito Rodriguez - Joe Lustig Mambo

- Tito Rodriguez – El Arrebato

 

No próximo artigo nos ocuparemos do Guaguancó e da Guaracha.

Salsaludações,

Mario “Speedy” Gonzales  

Nota do editor: Para mais detalhes sobre cada um dos "Quatro Ases do Mambo", consulte também a seção sobre a história da música latina. CLIQUE AQUI

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