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SALSA – A CONVERGÊNCIA DOS RITMOS LATINOS

 

PARTE 1 - O SON CUBANO , por Mário "Speedy" Gonzales.

Há muito vem se notando o crescimento no interesse por este gênero, ou melhor, “conceito musical” como diria tão acertadamente Willie Colón, aqui no Brasil. Logo após o ineditismo imposto pelo site Salsa Brasil, vários salseros brasileiros se deram o trabalho de inundar a internet com páginas que pretendiam abordar o contagiante gênero.

Lamentavelmente a globalização fez vitimas e trouxe para os ares luso-americanos algum tipo de confusão, sobretudo no referente à diferenciação dos vários ritmos latinos que já existiam e que passaram a ser considerados indiscriminadamente como salsa. Assim também, artistas de musica pop, passaram a ser considerados como cantores de salsa, exatamente como fruto da confusão armada pelas produtoras de CD, que no seu afã de atingir um maior número de compradores em potencial (mais incautos do que propriamente amantes do gênero) acabaram colocando todo mundo dentro de um mesmo “saco musical”.

A tudo isso acrescente os experts, que apareceram para tomar conta do nascente novo negocio de ensinar a dançar salsa, e que na imperativa e necessária atitude de alavancar para eles a “autoridade salsistica”, trouxeram apenas mais confusão no já minguado conhecimento da primeira geração salsera do Brasil ao abordar sem o devido esclarecimento as diferenças exatas entre a natureza e o gênero. Ocorre então nestas terras tropicais um fenômeno inverso ao que originalmente se deu quando o “bairro neo iorquino” pariu a salsa lá nos idos anos 60 e que era a assimilação da essência musical propriamente dita por parte do verdadeiro “salsero”.  

No Brasil essa etapa foi deixada de lado, e com ajuda das Academias de Dança de Salão, a salsa acabou ingressando por aqui como se fosse uma onda de musica baiana para o carnaval. Aqui cabe uma reflexão: O que é ser salsero, afinal? É ter conhecimento sobre os temas, compositores, ritmos que transitam por esses temas, entender de soneos, soneros e músicos? Ou apenas se preocupar em aprender as coreografias nos locais criados para “ensinar a dançar” e espremer bem as sessenta pratas mensais que nos cobram os experts de plantão?

Deixemos de lado a resposta óbvia. É claro que o salsero tem que ser também “bailador”, pois exatamente o swing contagiante desse gênero faz com que os que se identificam com ele não consigam resistir ao balanço. Bem, a intenção deste escrito é a de tentar esclarecer um pouco sobre qual é a relação da salsa com os demais ritmos latinos e quem sabe desatar um dos tantos nós com que está amarrado esse “saco musical” que nos legaram os “bandeirantes da salsa no Brasil”. Para facilitar a compreensão, relacionaremos os principais ritmos que convergem com a salsa, suas definições, suas origens geográficas e exemplos de temas musicais e figuras representativas.

Neste artigo começaremos com o SON, que é o ritmo musical mais popular de Cuba e que mais tem influenciado a SALSA .

O SON é o resultado da fusão das bases rítmicas africanas e espanholas através do uso de instrumentos musicais das duas correntes e da lírica ibero-européia.

O SON se desenvolveu ao longo de todo o território cubano e na sua evolução foi absorvendo elementos das manifestações sociais, religiosas e culturais que compõem a geografia cubana.

O SON começou a se popularizar nos carnavais de Santiago de Cuba no ano de 1892, através de um interprete de nome Nene Manfugás, este executava um instrumento rústico de três cordas duplas presos a uma caixa de madeira denominado Tres, o qual se transformaria no símbolo do SON até os dias de hoje.

O tres, o bongó, as maracas, a clave e o contrabaixo são outros instrumentos utilizados no SON, principalmente nos centros urbanos. A sua estrutura musical esta fundamentada na repetição constante de quatro compassos cantados por um coro, melhor conhecido como montuno, também adotado pela SALSA. Nesta seqüência é que acontece a improvisação do cantante, geralmente em contraste com o coro. Talvez aqui resida em parte a dificuldade em diferencia-la com os temas de SALSA dada a similaridade na evolução lírico-musical (especialmente no caso dos neo-salseros). O montuno no SON seria então o soneo na SALSA.

Ao assentar-se nos centros urbanos o SON adquire um elemento estrutural da música européia, que é a inclusão de uma sessão instrumental fechada que se localiza no início do canto antes do montuno, ou seja, na primeira parte do SON se centraliza o tema para que depois encaminhe a improvisação no montuno tornando possível as variações sobre o tema. Assim, nestes três elementos é que ocorre a convergência da SALSA com o SON, a seguir: a) O uso da mesma clave;  b) A utilização da sessão rítmica fechada antes do inicio do canto; e c) A incorporação do montuno como característica na hora da improvisação.

Os executantes do SON inicialmente vinham das zonas rurais e dominaram os centros urbanos durante a década dos 20’s do século passado, período no qual se transformaram em Sextetos e Septetos, por exemplo o famoso Sexteto Habanero fundado em 1920 teve como seu antecessor o Cuarteto Oriental e em 1927 quando se integrou a trompete virou Septeto (mesmo mantendo o nome de Sexteto Habanero). O principal septeto foi o Septeto Nacional de Ignácio Piñeiro, esta agrupação popularizou o tema “Echale Salsita”, para muitos a verdadeira origem do uso da palavra SALSA. No meu modo de entender o uso desta expressão no tema em questão não tinha sentido metafórico e sim literal (...echale salsita a la butifarra...) o que descaracterizaria a intenção de atribuir “sabor” ao esquema musical e apenas mas como componente de concordância com a parte lírica.

Sexteto Habanero.   Ignacio Piñeiro.

Dois momentos do Septeto Nacional.

O SON  foi adotado nos bailes das classes pobres (los solares) e foi discriminado duramente pelas classes privilegiadas sendo inclusive proibido pelo governo que o considerava imoral. Mas graças ao trabalho de grupos que contavam com músicos de primeira qualidade o SON conseguiu se impor e transbordar as fronteiras internacionais. Já nos anos 20 do século passado se converteu no principal ritmo de Cuba superando em importância ao DANZON.

Conjunto Casino.

A década de 30 do século passado representa o período da internacionalização do SON. O principal responsável por este fato foi a Orquestra de Don Aspiazu e seu cantante principal Antonio Machin quando realizaram apresentações nos EEUU e a Europa no inicio da década já mencionada. Esta orquestra transformou em êxito mundial o tema “El Manicero” do compositor Moises Simon. O Septeto Nacional de Ignácio Piñeiro, também fez sucesso nesta década ao apresentar-se na feira Mundial de Chicago em 1933 conseguindo muito sucesso.

Arsenio Rodríguez, "El Ciego Maravilloso", fundamentador do Son Cubano e precursor da Salsa. Influenciou diretamente salseros como Larry Harlow, bem como a moderna música cubana. Tinha um conceito africano muito forte na sua música.

Arsenio Rodríguez e seu conjunto. Na foto ainda aparecem como destaques os band-leaders Tito Rodríguez e Machito, a cantora Graciela Pérez e o percussionista Chano Pozo.

Na década de 40 do século passado surgiram os Conjuntos, isto quando o “tresero” (executor do “Tres”) Arsenio Rodriguez resolve ampliar o formato de Septeto incluindo duas trompetes, a tumbadora e o piano. Logo após, Antonio Arcaño também incorpora a  tumbadora ao seu formato de Charanga, o violão deixa de ser utilizado e o “Tres” começa o seu reinado absoluto como o instrumento porta-bandeira das agrupações de SON. Com esta perspectiva musical o Conjunto de Arsenio e outras agrupações criaram uma nova sonoridade para o ritmo. A Sonora Matancera e o Conjunto Casino são outros conjuntos que se destacaram nessa década.

Sonora Matancera

Conjunto Casino.

Benny Moré, à frente de sua orquestra.

Na década de 50 do século passado, Benny More criou escola na interpretação do SON sempre acompanhado por seu conjunto (La Tribu era como ele os chamava) caracterizando este período como o da evolução interpretativa do SON.

No final dos 60’s e a princípios dos 70’s do século passado, o baixista cubano Juan Formell e a sua agrupação “Los Van Van” criam o “SONGO”  (base da Timba atual) ao mesclar o SON com o Beat americano. Formell incorporou na sua agrupação de Charanga os “trap drums”, o baixo elétrico, amplificou os violinos e os cantantes passaram a interpretar a três vozes, finalmente e talvez inspirado em Palmieri (com a sua Trombanga) e/ou em Barretto (com a sua Charanga Moderna) introduziu os trombones na Charanga Cubana. Sem dúvida nenhuma, o SON  é o ritmo musical cubano que mais influenciou na conceitualização rítmica da SALSA. A sua similaridade é enorme, basta lembrar que os intérpretes de musica caribenha antes do “big bang” da SALSA e após o inicio desta conseguiram interpretar tanto um como a outra sem problema nenhum, até hoje existe a insinuação de que a SALSA  é o son montuno mal tocado, mas essa é uma polêmica da qual nos ocuparemos em uma outra oportunidade.

Para finalizar este escrito que terá continuação com outros ritmos latinos, apresentamos a seguir grandes temas e principais expoentes do SON:

Trio Matamoros.

TEMAS PRINCIPAIS: Son De La Loma (Matamoros) , El Manicero (Simon) , Échale Salsita (Piñeiro) , El Que Siembra Su Maíz (Matamoros) , Yerbero Moderno (Milli) , Me Gusta Más El Son (Benítez) , Así Son Bongó (Fernández) , Preparen Candela (Hierrezuelo).

PRINCIPAIS INTÉRPRETES: Benny Moré , Los Compadres , Compay Segundo , Pío Leyva , Septeto Nacional de Ignácio Piñeiro , Trío Matamoros , Antonio Arcaño , Conjunto de Arsenio Rodríguez , Orquestra de Don Aspiazu , Conjunto Casino, Antonio Machín.

Antonio Machín, Compay Segundo, Ignacio Piñeiro, Pío Leyva e Benny Moré.

Cabe esclarecer que Benny Moré não é um cantor exclusivo de SON, pois se destacou também em outros gêneros tanto é assim que era chamado “El Bárbaro Del Ritmo”, os demais interpretes citados eram preponderantemente interpretes de SON.

Salsaudações,

Mario “Speedy” Gonzáles.

(c) 1999 - 2004, Salsa Brasil OnLine.