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"Notações Latinas"

 

Por Mario “Speedy” Gonzales, desde Goiânia-GO.  

Leia também:

SALSA – A CONVERGÊNCIA DOS RITMOS LATINOS

parte 1 - O Son Cubano

parte 2 - O Mambo

parte 3 - O Guaguancó e a Guaracha

 

A SALSA MONGA - Origens e desenvolvimento

 

A SALSA – O BAIRRO COMO A SUA ESSÊNCIA CONCEITUAL

Grande parte dos músicos caribenhos que conseguiram sucesso e prestigio a partir da década dos 50’s não conseguiram engolir o auge salsero, expressões que ficaram famosas como as de Tito Puente, por exemplo, (...Salsa? Eu só conheço a salsa de tomate...) e outras como a da recentemente falecida Célia Cruz (depois alavancada como a “Rainha da Salsa”) que disse que quando era vocalista da Sonora Matancera o tema “Sopita en Botella” era uma guaracha e agora (no inicio dos 70’s) era uma salsa, mas que no final seriam a mesma coisa, só denotavam talvez algum tipo de “despeito” resultado talvez de  não haverem participado do período embrionário e conseqüentemente também do “parto musical” deste gênero. No caso do “Rey Do Timbal” a sua frase talvez não passasse de um mero e inseguro “pé pra atrás” já que quando resolveu utilizá-la, a SALSA se encontrava íngreme na sua queda e logicamente resultava mais cômodo “não tomar partido por uma moda que parecia chegar ao fim” (bem esperto, convenhamos).

Fora isso (e ate hoje existe esta “refrega”) a salsa não passaria de música cubana “mal tocada” pelos latinos nuyoricans (mas especificamente os boricuas). Mas “ao César o que é do César”, como disse o ditado, a verdade é que não se pode negar de que algo de importante estava acontecendo na cidade de Nova Iorque (berço salsero), senão vejamos:

O que reinava, musicalmente falando, lá nos idos finais da década dos 50’s e inicio dos 60’s eram as Big Bands, Sextetos, Charangas e Conjuntos e o objetivo de alcance musical da época tinha como mira ao “bailador”, assim todo o que fazia sucesso estava dirigido sobre esse prisma, LA PACHANGA, criação do cubano Eduardo Davidson, era o ritmo das multidões na cidade dos arranha-céus e nas adjacências hispano-latinas, e toda agrupação musical latina que se prezasse como tal a adotou como o carro chefe das suas apresentações. Por outro lado o processo embrionário-salsero inicia-se em 1963 quando o musico dominicano Johnny Pacheco decide sair da gravadora Alegre Records, e contrata o advogado italo-americano Jerry Massucci para assessorá-lo. Após o convívio e nascente amizade com este, resolvem se associar e abrir a famosa produtora FANIA criada inicialmente para “monopolizar” a musica desenvolvida por latinos em EEUU, conta a historia que o próprio Pacheco se encarregava da produção e até da entrega e distribuição dos produtos.

Johnny Pacheco

Simultaneamente LA PACHANGA começa a perder espaço para outras tendências musicais (boogaloo, mozambique e outros tantos “oos”) mas deixa um legado que marcaria mais tarde, e de forma definitiva a identificação do gênero “SALSA” e que foi a inclusão, na seção de metais (nas Charangas e Conjuntos da época) dos trombones, trompetes e saxofone (a conformação típica das agrupações cubanas deste gênero eram de violinos e flautas).

  

Ray Barretto: pioneiro na modernização das charangas.

Destacaram-se a Charanga Moderna  de Ray Barretto (o primeiro a fazer a experiência), e o Conjunto Cachana de Joe Quijano (alguns anos mais tarde no Cheetah com a inclusão do virtuoso musico Yomo Toro a FANIA definiria a conformação da agrupação instrumental salsera deixando de lado o “tres cubano” pelo “cuatro porto-riquenho”).

Pello "El Afrokán", conguero cubano, criador do ritmo "mozambique" 

Note-se então a contribuição para o gênero que mais adiante se consolidaria e que é desprezado pelos músicos cubanos (talvez é isso que eles entendam malfadadamente como o “son mal tocado” pois son sem tres não é son  segundo a sabia crença cubana).

A tudo isso em Cuba prospera a Revolução Socialista, assim, cabarés e clubes em La Habana são fechados liquidando desta forma o grande palco que tinham os músicos cubanos os quais em parte emigram para terras norte americanas (EEUU e México principalmente onde a onda da época pré-revolução continuaria e por isso a explicação para a quase zero participação “asteca” no movimento inicial salsero). As outras correntes musicais típicas cubanas porém continuariam dentro da Ilha e essencialmente o cubano continuar-lhe-ia cantando ao seu “Bohio” e a Trova passaria a ter maior importância no regime.

Por esses anos ocorreria um fenômeno de ordem social que teria uma importância capital.  A violência e o estilo agrio de determinado tipo de vida: a do “bairro marginal neo iorquino” que fez com que os jovens  latinos que viviam nesses bairros utilizassem a musica como maneira de manifestar o seu cotidiano, pois é desses bairros que saíram para o mundo musical gente como Willie Colón, Ismael Miranda e tantos outros que se juntaram a figuras carimbadas na musica latina que entenderam o movimento e o levaram pra frente.

Israel "Cachao" López, criador das descargas. Foto da capa do histórico LP da Panart, em 1956. Estas sessões gravadas em Cuba delimitaram todo o caminho a ser seguido pelos músicos latinos nos anos seguintes.

Músicos cubanos também tiveram participação importante para a consolidação do movimento salsero especialmente quando atenderam as solicitações de participação nas chamadas Jam Sessions  ou Descargas,  estas reuniões musicais se fundamentavam nas idéias e o trabalho musical que gravou Israel Lopez “Cachao” e outros músicos cubanos para o selo Panart de Cuba desde 1956. O boricua Charlie Palmieri segue nessa direção musical com a Tico All Stars. Nestas Descargas participavam músicos cubanos, “nuyoricans” e americanos e executavam musica essencialmente de origem cubana mesclada com elementos de jazz. Desta forma a semente das “descargas instrumentais salseras”  que tanto ouviríamos nas peças de salsa posteriormente virariam colheita principalmente nos anos 70.

Charlie Palmieri "El Gigante de Las Blancas y Negras". Irmão mais velho de Eddie Palmieri, foi o fundador da primeira charanga americana, a "La Duboney", onde se destacava o flautista Johnny Pacheco.

Desta forma a musica produzida no bairro latino de Nova Iorque era essencialmente caribenha e o son cubano (ou melhor a clave do son cubano) passaria a ser a sua raiz e “a posteriori”  sofreria um processo de transgenização com outras correntes musicais (jazz, bomba, plena, cumbia, bossa nova, etc.) até chegar a sua expressão salsera.

Por tudo isso entender a SALSA pressupõe entender também todo o contexto sócio cultural para a qual foi criada. SALSA implica em “bairro”, e esta é a grande diferença com a musica de origem cubana, os valores musicais definitivos tão só se encontrariam no “bairro” (até anos mais tarde atingir um “bairro maior” representado pela “América” e passando pela SALSA FOCILA e SALSA CONCIENCIA de Ruben Blades)  entanto que para a  musica dos 50’s bastava basicamente dirigi-la pelo caminho do bailador.

Os sons desse bairro neo iorquino (tiros, sirenes de carros policiais, brigas de rua e outros), se equivaliam perfeitamente com as notas dos trombones que desafinavam e com os montunos onde a violência lírico-musical era o seu selo diferenciado. E claro, não poderia ser diferente, a vida nesses bairros não era de conforto nem de tranqüilidade. Resulta evidente, então, que a expressão que ali nascia, ainda sem o nome formal de “SALSA”,  era algo mais do que música cubana velha.

Quando Célia Cruz é convidada para ser a “Rainha da Salsa” lá pelos anos de 1974, resgatada do México pelo “detrator salsero” Tito Puente e devidamente entregue ao dominicano Johnny Pacheco para sofrer a sua transmutação salsera, ela em retribuição oferece ao seu novo publico o seu clássico matancero “Bemba Colorá” (imortalizado num show com a Fania All Stars e componente da trilha sonora do filme “Salsa” de 1975) aqui começa no meu modo de ver a idéia de que a salsa não passava de algo criado apenas para saquear a musica cubana. Algo injusto, pois se bem Pacheco e Harlow preferiram continuar no estilo de produzir SALSA inspirada no son montuno típico não se pode deixar de lado a corrente que ainda mantinha a essência da salsa (ou seja o bairro e seu cotidiano) representada pelo trabalho de Eddie Palmieri, Richie Ray e Willie Colon com verdadeira autenticidade bairristica.

As Estrelas de Fania de 1971, que apresentam um excelente resumo de todo o que havia sucedido até então e de todo o que poderia suceder em diante, já anunciava de maneira aberta a sua inclinação pelos velhos estilos do Son. Assumiram o musico cubano Arsenio Rodríguez como inspiração fundamental.

 

Arsenio Rodríguez "El Ciego Maravilloso", modernizador do son cubano na década de 50, foi o músico que mais influenciou o pianista Larry Harlow, um dos pioneiros da Salsa.

Desta maneira, enquanto Larry Harlow soube tirar melhor proveito da influencia “arsenística”, aportando combinações sonoras consideravelmente válidas, Pacheco, por seu lado,  conformou-se apenas em  formar uma orquestra ao estilo da já famosa agrupação cubana “La Sonora Matancera”  porém com a estrutura instrumental modernizada (como já vimos alguns parágrafos acima), chegando-se assim a catalogar a era da “matancerização” da SALSA. Talvez o erro de Pacheco tenha sido mais do que copiar a La Sonora Matancera  o fato de utilizar o acervo lírico musical cubano em vez de criar novos temas.

Se tomarmos em consideração de que os temas gravados eram basicamente os mesmos que já previamente haviam sido publicados em Cuba por cubanos, e que estes como resultado do bloqueio a que estavam submetidos não poderiam reclamar seus direitos de autor, entende-se ante tal situação de que em Nova Iorque qualquer cidadão poderia fazer o que quiser com os temas cubanos, inclusive registra-los como próprios.

É por isso que na época do boom da SALSA, não houve um maior aporte criativo (fora o “underground”, boricua representado por Frankie Dante & Los Flamboyan, Ernie Agosto & La Conspiracion, Johnny Colón e outros dessa corrente) conformando-se o “cartel Fania” com seus limites na “criatividade lírico-salsosa ” (impostos pelo seu Diretor Pacheco, como já vimos anteriormente), caracterizando assim esta fase como uma moda; porque a matancerização, longe de ser a salsa, tão só foi uma moda dentro dela, que por atender às necessidades econômicas da industria fonográfica ou por mera “preguiça pachequiana” acabou-lhe acertando uma punhalada e ferindo-a quase de morte, como reação natural dos bairros urbanos, porque quando nasce o movimento bairrístico representado pelo som desses trombones poderosos os jovens que se identificavam com ela pouco sabiam da musica dos 40’s e 50’s e alguns sequer tinham chegado a escutar a La Sonora Matancera.

Como conclusão devemos admitir de que a salsa teve duas variantes: por um lado “os vanguardistas” com Palmieri e Colón na cabeça; e por outro os que faziam SALSA seguindo a “onda lírico-cubana” de outrora com Harlow e principalmente Pacheco (após a coroação de Célia).

Estas variantes permitiram que o privilégio que detinha Nova Iorque, quanto à matéria salsera, chegasse ao fim e ao mesmo tempo fez com que os países do caribe e da América Hispana (que até então apenas representavam um papel de segundo plano) adotaram a tendência vanguardista com Porto Rico na cabeça, seguidos na mesma onda pela Colômbia, Venezuela, Equador e Peru, porque definitivamente as características desses “bairros latinos” inclusive o neo iorquino, são iguais, e é por essa razão que a SALSA  não morrerá pelo menos enquanto o “bairro” permaneça vivo.

Mario “Speedy” Gonzales.

 

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