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A “SALSA MONGA”

Há muito vem se comentando nas rodas salseras brasileiras sobre determinados temas musicais, se é “Salsa Dura” ou “Salsa Monga”, alguns qualificam alguns temas como “Salsa Romântica” ou mesmo como “Salsa Erótica” e os mais desavisados ainda incluem na qualificação a expressão “Salsa Sensual” com evidente conotação sexual.

De fato a expressão “Salsa Monga” tomou vigor depois que seu criador o “Mr. Afinque” Willie Rosário a lançou num programa radial conduzido pelo “Sonero Del Pueblo” Marvin Santiago há poucos anos atrás (na década dos 90’s do século passado para ser mais preciso). Rosário (e não muito menos Santiago também) experimentou desse “doce” quando “vendeu sua alma” para o selo TH Rodven e foi obrigado a gravar essa linha musical a qual tanto critica. Santiago por sua parte cavou a sua cova gravando esse estilo também na sua temporada na disquera venezuelana lá nos idos anos 80’s.

 

Mr. Afinque, criador da expressão Salsa Monga

Quando Mr. Afinque se referia a “Salsa Monga” (no inicio dos 90’s) queria definir a pobreza apresentada nos arranjos musicais, assim a malfadada “monguice” envolvia esse tipo de composições que abriam mão das já conhecidas “descargas” e abriam passo à ‘mecânicas orquestrações” geradas por sintetizadores e até mesmo pré-concebidas por computador, deixando de lado o talento natural dos músicos e apresentando arranjos tão simples que qualquer amador poderia virar um arranjador musical, caso fosse preciso.

A lírica romântica sempre esteve presente nas interpretações dos “soneros” mais “duros”. Assim é bom tomar cuidado se quando escutamos algumas musicas não sejam incluídas num rol de expressões que não as condizem. Se ouvirmos de Cortijo & Su Combo, com a voz de Ismael Rivera, o tema “Volare” (do baladista italiano Domenico Modugno) ou a Richie Ray & Bobby Cruz com “My Way (sucesso de Paul Anka) ou a Cheo Feliciano bem acompanhado por Eddie Palmieri cantando “El Dia Que Me Quieras” ou mesmo a Willie Colon e seu “Sin Poderte Hablar” não podemos afirmar de que se trata de uma “Salsa Romântica” o que estamos ouvindo, pois a mesma como rotulo formal apareceu a rigor em 1981 quando Louie Ramirez e seu vocalista Ray De La Paz gravam o LP “Noche Caliente” onde todas as musicas sem exceção eram baladas românticas famosas gravadas em clave de salsa.

 

 “Noche Caliente” primeira produção 100% de baladas românticas em clave de salsa.

Aliás para pecar um pouco com o preciosismo, para o ano de 1979 o musico cubano Fitto Foster, radicado em EEUU desde o inicio dos 70’s e fundador da orquestra “La Palabra” já tocava em seus shows a balada romântica “Lady” de composição de Lionel Ritchie e interpretada originalmente pelo cantor americano Kenny Rogers, bem como os hits românticos “Cama e Mesa” de Roberto e Erasmo Carlos e principalmente “Todo Se Derrumbó” do cantante mexicano Emmanuel (depois estrondoso sucesso com Ray de La Paz e Louie Ramirez nos anos seguintes), até aqui nada que os diferenciasse dos temas citados no parágrafo anterior a não ser com relação à “monguice” nos arranjos musicais, Foster, acompanhado pelos músicos da orquestra “Versalles” já dava sinais do que lhe esperava à “Salsa Dura” e as suas “descargas instrumentais”.

A orquestra “La Palabra” seguia uma corrente musical bastante influenciada pelo R&B americano e o pop, tocavam também musica de (e com) Stevie Wonder e principalmente de Kool & The Gang mas não deixavam de lado as suas raízes afro caribenhas.

Foster junto a Jesus “El Niño” Alejandro e a orquestra “Versalles” gravam um single em 45 rpm com o tema “Me Voy Pa’ Puerto Rico” no lado “A”  e “Todo Se Derrumbó” no lado “B”, este ultimo fez bastante sucesso e incrementou-se nas apresentações que “La Palabra” fazia no “Club Candilejas” em Los Angeles, lugar onde o executivo Joni Figueras da K-Tel Records freqüentava, foi numa dessas apresentações em que o executivo da K-Tel lhes fez a proposta de gravar baladas em clave de salsa. O projeto só foi à frente com Louie Ramirez porque Foster e “La Palabra” tiveram que sair de gira com Stevie Wonder, assim a paternidade da “Salsa Romântica” acabou sendo atribuída ao “Gênio De La Salsa” Louie Ramirez quem de fato foi o primeiro a gravar uma produção completa com todos os temas oriundos de baladas românticas.

Fitto Foster, líder do “La Palabra”, o primeiro a gravar um Single de 45 rpm contendo uma balada em clave de salsa.

Cabe este esclarecimento apenas como ilustração no que se refere ao conceito de “Salsa Romântica” este ligado exclusivamente à lírica vinda de sucessos já consagrados por baladistas da América Latina e cujos arranjos musicais inicialmente vinham de gente do circulo “duro” da salsa, inclusive os coros, basta ver o plantel convocado por Don Louie para o seu “Noche Caliente”, gente do naipe de Jose Mangual Jr., Marty Sheller, Melcochita e outras figuras carimbadas do cenário salsero.

Lamentavelmente o segundo disco do projeto já traz como arranjador o futuro “dono do pedaço” Sergio George e mesmo que se mantivesse a linha de seguir fazendo baladas em clave de salsa, os arranjos começam a demonstrar o que viria a ser a tonica da “Salsa Monga” ou seja os arranjos simples e sem graça mas que comercialmente estavam amparados pelos sucessos das letras já consagradas por cantantes românticos como Jose Luis Rodriguez, Roberto Carlos, Rocio Durcal, Julio Iglesias e José José só para citar alguns. Ramirez já fora do projeto da K-Tel, migra para o selo Caiman e leva com ele o conceito inicial do que seria a “Salsa Romântica” mas só consegue segurar a onda ate 1986 ano em que resolve largar o barco e refugiar-se no jazz lançando seu “Tributo A Cal Tjader”.

   “Noche Caliente 2”, marco nos primórdios da “Salsa Monga”

 

Ramirez caiu sem pena nem gloria para a nova onda que já assolava o mundo salsero e que o faria olhar em outra direção.

       

  Louie Ramirez “El Gênio De La Salsa”, o primeiro a gravar uma produção completa de “Salsa Romântica”

Criada a corrente “monga” por Sergio George com seus arranjos, foram aparecendo produtores mais ousados, assim o que inicialmente tinha nascido da mão de sucessos já consagrados em baladas românticas agora virava produto 100% “mongo” já que alem dos arranjos “sem graça” apareceu um surto de compositores (leia-se: Chein Garcia; Pedro Azael; Tommy Villarinni, Omar Alfanno, Gloria Gonzáles, Zulma Angélica, ufa! a lista é interminável) que já foram moldando o que seria a “Salsa Erótica” ou digamos a 1a. Metamorfose da inicial “Salsa Romântica” se assim a queremos chamar. Apareceram vários artistas que, embalados pelo sucesso comercial, são lançados pelas gravadoras. Nesta fase é que saem à luz gente como Eddie Santiago que já tinha experimentado com o Conjunto Chaney e já tinha “know how” suficiente para se lançar como solista, Willie González (também oriundo do Chaney) embora com menor sucesso, e o maior de todos Frankie Ruiz, recém saído da sua experiência com Tommy Olivencia e já com a bagagem de ter sido vocalista do “La Solucion”.

 

Sergio George, arranjos “mongos” na salsa.

 

Embora Santiago tenha se autocoroado como o “Rey De La Salsa Romântica”, Ruiz conseguiu batê-lo em todos os sentidos, tinha carisma, melhor timbre de voz, e trazia consigo a lírica erótica em tom suficiente como para não saturar o ouvido do salsero (principalmente de aquele que já estava virando a casaca “merenguistica”) ao invés do que fizeram gente como Lalo Rodriguez por exemplo quem passou dos limites com “Devorame Otra Vez” e com seu LP com o sugestivo nome “Sexacional” que acabou sendo vapuleado pela critica. Por outro lado a forma de dançar esta musica era a que a definia exatamente como “Erótica”, os trejeitos e os passos utilizados de fato beiravam o “softcore”, gente como Robby Rosa do Grupo Menudo acabou virando ícone da dança na “Salsa Erótica”, é só assistir o filme “Salsa” de 1988 com o próprio Rosa para tirar conclusões.

 Eddie Santiago & Frankie Ruiz, ícones da “Salsa Romântica”

Definitivamente a onda romântica já tinha tomado conta do mundo da salsa porém faltava o toque final para que comercialmente falando a coisa não caísse. É ai onde aparece a 2a. Metamorfose da “Salsa Romântica” e que já não tem mais a ver com os arranjos ou com a lírica e sim com a “silhueta do pseudo-sonero” (cabe uma menção especial aqui à tentativa de “menudizar” a salsa com a criação de grupos como “Salsa Kids”, “Adolescent’s Orquesta”; “DLG-Dark Latin Groove-sempre Sergio George no meio-). As produtoras percebem que não basta cantar ao amor ou ao sexo mas também é importante quem canta e mais que tudo, confirma através das “alfinetadas” anteriores, que a ala feminina é um tremendo mercado para produções onde seja destaque principal a figura estética do cantante, este pequeno detalhe pode bem ser batizado como a “monarquização” da salsa pois é neste momento onde aparecem os “príncipes de la salsa”, na ordem: Jerry Rivera, Luis Enrique, Victor Manuelle, Domingo Quiñonez, Rey Ruiz, Guianko, Manny Manuel, etc, meros produtos fabricados pela mídia para tomar conta dessa “carência estética” que lhe faltava à salsa. Por outro lado outra corrente dentro da “era da monganização” se apresentava, gente como Gilberto Santa Rosa por exemplo (longe de ser um galã de cinema) repararam que a ala feminina não necessariamente queria ouvir que eram apenas “objetos sexuais”, assim apresenta uma proposta contendo uma lírica na qual o “sexismo” fica de lado e de fato o romantismo se apresenta como deveria ser (pelo menos quanto as letras), temas como “Conciencia”, “Te Propongo”, “Impaciencia” e principalmente “Perdoname” são amostras dessa tese e que claramente podem ser enquadradas sob a denominação de “Salsa Sensual”.

 Os “Príncipes” Rey Ruiz, Jerry Rivera e Luis Enrique

Mas ainda era pouco para as produtoras, o mercado teria que ser maior, já não cabia tanta gente assim para ter que dividir os lucros, estes diminuíram e era necessário fazer alguma coisa, nasce a idéia de transformar a salsa definitivamente tirar esse rotulo de exclusividade dos verdadeiros “soneros”.

Jerry Rivera, símbolo dos cantores compradores de soneos alheios, dada a sua falta de talento.

Se alguns dos “belos” da salsa romântica encomendavam seus “soneos” para apresentá-los como seus em suas produções pelo menos há de se resgatar a intenção de que eles pretendiam seguir a “linha soneristica” ou no mínimo copiá-la mas nunca deixá-la de lado, ou seja, mesmo que “fazendo cola” é necessário “sonear” essa era a premissa.

E o que é que a industria faz? Simples, se o problema é o tamanho do mercado então vamos ampliá-lo. Como? Recorrendo à matemática, vamos somar os seguidores de um segmento musical junto de outro, já não importa mais se é feminino ou se é masculino, se é bom cantor ou não, se o timbre de voz é bom ou não, o que importa é o segmento musical e a quantidade de seguidores, assim estrelas pop da musica latina passam a gravar Salsa. A pioneira é a RMM (outra vez Sergio George) ao convidar gente como Thalia, Emmanuel, Yuri, Mijares e outras estrelas pop para fazer duetos com salseros em vigência ou decadentes, era o pontapé inicial. Os artistas latinos dos EE.UU. não ficaram atrás e gente como o barítono Marc Anthony (até então interprete de temas em inglês e uma que outra aparição em filmes americanos) La India (a contragosto apadrinhada por Eddie Palmieri) e Gloria Estefan são chamados para entrar na roda viva e compartilhar do novo esquema.

 Primeiro projeto com estrelas do pop latino cantando Salsa na produção “Salsa En La Sangre”

Nascem então os “curingas da salsa” gente que grava temas, que tanto faz, podem ser apresentados em versões de baladas, salsa ou mesmo lançados em remix para discotecas é a essência “pop” entrando na corrente sanguínea da salsa.

Esse é o panorama que assola hoje o mundo salsero, felizmente o “revival” da “Salsa Dura” esta acontecendo (lembrem-se da premissa de que é melhor copiar do que deixar de lado) e isso deve ser considerado como a “ressurreição da salsa original”, o nosso Adão (Louie Ramirez) já não esta entre nós para repetir o “pecado original” (a mesmíssima “Salsa Romântica”), esperemos que seja como na Bíblia (sem intenção nenhuma de heresia por favor) e que apareça logo o messias que apague essa fase no conceito musical que tanto gostamos e inicie a outra, claro seguindo a linha da qual nunca deveria ter saído.

Enfim há muita “tela” para cortar mas parece-me que os devidos esclarecimentos devem ser dados. Por outro lado a “Salsa Dura” (ou “Brava” ou “Gorda” ou “Clasica”) vá muito bem obrigado.

Salsaludações,

Mario “Speedy” Gonzales

(c) 1999 - 2004 Salsa Brasil On Line.